segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Caríssimo Rodrigo Moita de Deus,

Mesmo correndo o risco de me tornar na nova Ulrich ou Jonet (apesar do meu apelido ser absolutamente luso), não posso deixar de comentar o vídeo que pretensamente iríamos mostrar aos alemães.
1) É verdade que reduzimos significativamente o analfabetismo. Mas substituimo-lo, em grande parte, pela iliteracia. Pessoalmente, não vejo o grande ganho de balbuciar palavras sem lhes apreender o sentido, mas isso sou eu.
2) Erradicámos os bairros de lata?! Erradicar, sinónimo de desarraigar, significa arrancar pela raiz, destruir radicalmente, extinguir. Aconselho-o a ir ler o dicionário e/ou dar uma voltinha ali pelas bandas da Cova da Moura (a menos que não a considere um bairro de lata dada a presença de tijolos).
3) Aos alemães pouco interessa quanto das nossas importações provêm do país deles; o que lhes é relevante é o peso de Portugal nas suas exportações. Eu não tenho dados numéricos, mas suponho que, no comércio externo deles, seremos... [ai, como é que se diz?...] insignificantes!
4) Quanto ao facto de trabalharmos muito ou pouco, permita-me que sugira que o relevante não é a duração da semana de trabalho, o número de feriados, a idade de reforma ou os dias de férias. O importante é o modo como se trabalha. E nós trabalhamos mal. Alguns por preguiça e laxismo. Porque acham que os empregos servem para ter um telefone de onde se podem fazer chamadas que não se terão de pagar ou que o expediente são horas para estar no Facebook e na internet em geral. Outros por incompetência e falta de sofisticação mental. O carteiro que anda a ziguezaguear, distribuindo a correspondência nos números pares e ímpares alternadamente, não é preguiçoso, simplesmente ainda não descortinou a forma mais eficiente de executar o seu trabalho. O mesmo se aplica ao operário da construção civil que varre contra o vento.
5) A Alemanha foi a primeira a violar as regras de disciplina orçamental concernentes ao défice, é certo. Mas o défice orçamental alemão não era estrutural, antes decorria de um processo de reunificação que obrigou a fazer transferências para a ex-RDA num montante de cerca do PIB português. Contrariamente, os países da Europa do Sul são tradicionalmente indisciplinados. O que está na origem do PEC, imposição dos próprios alemães, que, abdicando de uma moeda forte e traumatizados pelo período hiperinflacionista do pós-Primeira Guerra Mundial, não estavam dispostos a partilhar a mesma unidade monetária com quem tinha grande probabilidade de exercer pressões no sentido da monetarização dos défices orçamentais sem uma garantia (?) de razoável comportamento. Além disso, parece-me muito mal, por princípio, desculpar erros próprios com os alheios.
6) O muro de Berlim caiu em 1989, é uma verdade histórica. Mas, para lá do muro, estava uma economia devastada, onde a iniciativa privada era inexistente. Uma economia que havia sido dirigida pelo mesmo tipo de pensamento que agora nos diz que é possível evitar a austeridade. Obviamente, há sempre alternativas (aparentemente, para a morte é que ainda não encontraram e, mesmo assim, uns estão mais mortos que outros). Na Europa de Leste, existia uma alternativa à economia de mercado, de facto. Tudo depende daquilo que se está disposto a aceitar em troca.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

A liberalizaçao das drogas: Efeitos estáticos, dinamicos, e incertezas



Em relacao ao debate acerca da liberalizaçao das drogas, eu gostaria de adicionar que existem tres perspectivas económicas. Julgo ser impossivel ver a liberalizaçao das drogas como uma estratégia de desenvolvimento, uma vez que a maioria destas tem um impacto negativo na produtividade laboral e ninguém espera que a industria das drogas livres crie muitos empregos. Todavia, pode ser que a liberdade de escolha tenha efeito positivos no bem-estar das pessoas e isso vale a pena analizar.

Eu diria que a perspectiva já discutida é uma visao válida e que foi iniciada há já algumas décadas por Milton Friedman. Actualmente, o professor Jeffrey Miron (de Harvard e Boston University) tem escrito vários estudos e até um livro, donde defende que os EUA poderiam poupar imenso dinheiro com a descriminalizaçao das drogas, poupando em forças policiais, gastos com prisioneiros, e talvez até em gastos de saúde.


Portugal e outros países europeus teriam provavelmente menos beneficios que os sugeridos por Friedman e Miron, uma vez que sao menos duros com os consumidores e existem muito menos prisioneiros associados ao consumo de drogas que nos EUA.

Todavia, a análise de Friedman e Miron ignora externalidades negativas que as drogas tem nos familiares dos utilizadores e na sociedade em geral. Assim, uma segunda perspectiva estudaria o efeito das externalidades negativas das drogas, ademais dos seus efeitos sobre os consumidores e receitas fiscais. A questao é que nós vivemos como famílias e nao só como individuos. O consumo de droga tem um impacto negativo sobre os conjuges, pais, ou filhos dos utilizadores. Outra externalidade negativa é que nao é verdade que os consumidores paguem todos os danos de saúde causados pelas drogas. As sociedades modernas tem todas saúde gratuita ou altamente subsidiada, logo os gastos do estado com a saúde de consumidores de drogas pode ser enorme. Por exemplo, estima-se que nos EUA os sem-abrigo (toxicodependentes ou nao) gastam ao redor de 100,000 dólares por ano do Governo em custos de saúde. Julgo, todavia, que alguns estudos apontam que os efeitos de saúde e de adiçao da maioria das drogas (retirando talvez a heroína e o crack) sao relativamente moderados, logo talvez o custo de saúde das drogas possa ser inferior ao custo dos sem-abrigos.

A liberalizacao mesmo assim poderia ser eficiente se fosse possivel aos familiares prejudicados pagar aos interessados em drogas para nao as consumir. Mas na prática nao existe um contrato que torne isto possivel, dado que os utilizadores de drogas sabem que os familiares sao generosos e dariam-lhe dinheiro outra vez mesmo que violasse o acordo. No caso desta externalidade existir faz sentido restringir o consumo de drogas. Também faz sentido restringir o acesso a drogas caso estas criem vicios e os individuos tenham falta de controle sobre si mesmos (Becker e Murphy, 1991). Mesmo assim, ainda fica a pergunta de qual é a melhor forma de restriçao, uma proibiçao policial ou um imposto muito alto sobre a produçao? Becker e Murphy (2005) concluem que um imposto alto é uma politica mais eficiente e com menos custos que a proibiçao policial, desde que a procura pelo produto seja pouco elástica. Isto porque se a procura é inelástica a proibiçao nao consegue reduzir o consumo, apenas aumentar os gastos policiais.


Agora existe um problema nestes estudos. Nós nao sabemos qual a elasticidade da procura de drogas. Dada a falta de dados é impossivel saber se haveria ou nao muitos consumidores de drogas a aparecerem, caso liberalizássemos as drogas e os preços de compra fossem reduzidos. Por isso, dois professores meus, Charles Manski e John Pepper (2001, 2003), escreveram um relatório dizendo que os dados nos EUA nao permitem dizer se é melhor proibir ou liberalizar as drogas:


É de assinalar que Manski é considerado um dos grandes génios da estatística mundial nos ultimos 100 anos, um gigante entre gigantes, alguém que provou estar 10 anos à frente de todos em pelo menos tres temas diferentes. Manski e Pepper argumentam ademais que além de desconhecermos a elasticidade de preco-procura das drogas, também nao conhecemos a elasticidade social da procura de droga (ou seja, quanto aumentaria o consumo de droga por vermos que os nossos amigos e vizinhos consomem drogas). No caso da elasticidade social ser alta existiria o risco do mundo se tornar uma sociedade de puros toxicodependentes. Dado que o custo de produzir drogas é baixo e o prazer cerebral destas é elevado este é um risco bem real. O relatório de Manski e Pepper conclui assim que o melhor que se pode dizer duma política de liberalizaçao das drogas é que desconhecemos os seus efeitos!

Além disso, falta uma terceira perspectiva sobre o impacto das drogas, os seus efeitos dinamicos, ou seja qual o seu impacto nas geracoes futuras.


O Professor James Heckman (Nobel de Economia) e vários dos seus co-autores estimam que as crianças sao menos apoiadas pelos pais do que seria eficiente. Isto acontece porque os pais das crianças sao muitas vezes preguiçosos e os mercados financeiros nao permitem às crianças pedir dinheiro emprestado e dizer aos pais “Pais, recebam este dinheiro e invistam mais tempo na minha aprendizagem. Eu vou pagar mais tarde quando for adulto e tenha um emprego com salário alto.” Assim, pais negligentes nao apoiam tanto as crianças no seu desenvolvimento. Isto é ainda pior quando temos em conta que uma parte fulcral do desenvolvimento da criança ocorre antes dos tres anos de idade e por isso as falhas dos pais nao podem ser compensadas por melhores infantários e escolas públicas. O custo das crianças nao poderem pedir emprestado para pagar “melhores pais” é elevadissimo. Heckman estima certamente que este problema vale varios pontos percentuais do PIB per capita americano.

Esta terceira perspectiva coloca em relevo outro problema das drogas, os efeitos nas geraçoes futuras. Reparem que mesmo que as drogas tenham pouco impacto na saúde dos consumidores e nos adultos em geral pode muito bem acontecer que a qualidade da aprendizagem das crianças baixe muito por terem pais, educadores de infancia, e professores que consomem drogas. Estes efeitos podem muito bem ser poderosos e nao seriam reversiveis! Se daqui a 10 ou 20 anos vissemos os efeitos negativos das drogas na aprendizagem da próxima geraçao, nenhum programa educativo ou todo o dinheiro do mundo iria corrigir isso.

Dadas estas duas perspectivas adicionais eu diria que sou conservador e nao apoiaria a liberalizaçao das drogas. O impacto da política é demasiado incerto, como apontam Manski e Pepper. E ademais como aponta Heckman a política poderia ter efeitos irreversiveis nas geraçoes futuras! Dada a incerteza, a minha perspectiva subjetiva é que se deveria estudar o caso de cada droga individual e decidir a sua liberalizaçao ou nao com cuidado. Mas claro os estudos económicos sao pouco claros e por isso existe margem para defensores e opositores da liberalizaçao das drogas apresentarem mais dados e melhores estudos.


Carlos Madeira
Economista do Banco Central do Chile
O artigo reflecta meramente a opiniao pessoal do seu autor.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Sexo, drogas, receita e despesa!

Muito se tem dito acerca de alternativas ao aumento de impostos. Muitos defendem as reformas estruturantes, mais sustentáveis no longo-prazo, outros pensam que só com mais impostos vamos lá, outros ainda querem cavar ainda mais o buraco com mais investimento do Estado.
Neste exercício de contas de merceeiro e altamente falível vou tentar explicar porque é que hoje faz sentido tornar a prostituição uma atividade legítima, bem como a produção e venda de drogas.

Deixo desde já a nota que em momento algum assumo os valores que fui encontrando como reais ou próximos de realistas. Infelizmente foram os únicos que consegui encontrar!

Prostituição:
Como todos sabemos, hoje a prostituição não é ilegal nem regulada em Portugal. Para o Estado a prostituição não existe enquanto atividade económica, considerando-se apenas ilegal a terceiros lucrar com a atividade.
Assim sendo(1), 28 mil prostitutas fazem 3 serviços por cada um dos 231 dias de trabalho, os quais têm um preço médio de 112 euros. Por ano é um volume de negócios de 5,4 mil milhões de euros (de acordo com uma pesquisa rápida que fiz pela internet).
Com estes pressupostos a receita fiscal andaria nos 1,25 milhões de euros (taxa 23%). Se assumirmos uma eficiência fiscal de 70% podemos falar de 870 milhões. Não é uma fortuna mas já são 2,4% das receitas correntes previstas para 2013, ou 7% da receita de IRS.
Para além desta receita haveria algum ganho de eficiência ao nível da qualidade de vida das 28 mil mulheres (não achei o número de prostitutos) bem como ganhos para a saúde pública (ganhando informação mais fiável acerca desta atividade.

Drogas
Em relação às drogas não tive grande capacidade de fazer as contas.
Para além da receita fiscal que decorreria da regulamentação desta atividade, haveria também alguma poupança no nosso sistema prisional, segurança pública e controlo de fronteiras (nos EUA gastam-se US$40 mil milhões/ano). Se feito num formato mais alargado (Europeu ou Mundial) poderia mesmo acabar com o financiamento a carteis criminosos e fundamentalistas islâmicos.

Claro que podemos brincar com o números para obter qualquer resultado desejado e nesta análise os valores valem o que valem, apesar de ter sido um exercício divertido – especialmente pelos sites que me apareciam no Google Search! J

A questão é mais básica: Não há razão nenhuma para estas duas atividades não serem legais, regulada e taxadas. O facto é que nenhum país no mundo conseguiu acabar com a prostituição ou consumo de drogas e que a sociedade até aceita a sua existência em alguma medida. É uma luta desigual de milhões contra uma entidade difusa e que apenas mostra, diariamente, a incapacidade do Estado em fazer cumprir a lei.

Especialmente em tempos de crise o Estado tem de ser inteligente e não se debater demasiado com questões paternalistas. Quem é o Estado para me dizer como ei-de usar o meu corpo, ou como o posso estragar! Também deve ser inteligente para perceber que controlos valem a pena e que custos se podem reduzir drasticamente simplesmente trazendo atividade obscura para a economia visível.


Notas:
(1) De acordo com algumas notícias que descobri que há 28 mil prostitutas a operar em Portugal (mais 5 menos 5 mil), 50% das quais Portuguesas. O número exato não interessa salvo se fugir muito a esta ordem de valores. Como várias fontes referiam valores nesta ordem de grandeza, vou assumir as 28 mil.
Também descobri um site que refere um preço médio de uma hora. O valor de referência é para Lisboa (280 euros). Vamos assumir que normalmente não querem uma hora e que existem outros serviços mais baratos (lembro-me de ter lido num do livros do Freakonomics e Superfreakonomics qualquer coisa como US$40 o serviço mais barato). Para efeitos de simplificação vamos dizer que o preço médio por cliente por ato rondará os 40% da dita hora (esta percentagem assume 1:2, hora:mais barato), ou 112 euros.
Vamos também partir do pressuposto que tiram um mês de férias e que trabalham 5 dias por semana.
Lembro-me também de ler algures que tipicamente não aceitavam mais do que 3 clientes por dia para um serviço de hora. As de rua aceitam mais clientes em serviços mais baratos. Penso que foi numa edição da Visão, mas não tenho isso como certo. Fazendo a equivalência com o inverso da percentagem anteriormente utilizada dá 7,5 unidades equivalente de serviço.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

O bom senso e a gestão das expectativas

Embora mais conhecida como a ciência do dinheiro, dos mercados e das previsões, a economia é essencialmente a ciência social que estuda como recursos escassos podem ser utilizados num determinado período de tempo. Da simplicidade da sua designação, a economia tornou-se cada vez mais complexa devido aos inúmeros campos de actuação: das finanças à agricultura, dos comportamentos sociais à neuroeconomia ou mesmo da indústria à gestão pública.
Com o objectivo de compreender a realidade das sociedades contemporâneas e como resposta à complexidade das matérias analisadas, tem havido uma gradual aproximação da economia a outras ciências. Algumas dessas aproximações originaram até Prémios Nobel para economistas que recorreram à psicologia, à filosofia e à neurologia.

Uma das mais interessantes áreas de estudo da economia está relacionada com as expectativas como conceito dinâmico e cada vez mais influente nas decisões de consumo, investimento ou poupança. Por exemplo, se alguém suspeita que os preços subam amanhã, é natural que antecipe a sua decisão de consumo para o dia de hoje. Mas se, por outro lado, essa mesma pessoa prever que no próximo ano a actividade económica tenha um comportamento recessivo, provavelmente vai optar por não investir agora com receios do futuro.
Sendo mais concreto, no que diz respeito às sucessivas medidas de austeridade anunciadas pelo Governo Português, é previsível que as expectativas dos agentes se retraiam porque têm menos rendimento disponível, o que origina diminuição do consumo e menor investimento. Com isso, teremos certamente uma contração da economia.
Mas o maior problema na gestão das expectativas de uma sociedade (ainda maior do que os orçamentos recessivos) são as declarações contraditórias e o discurso político incoerente. Por exemplo, quando um governante afirma que é possível aliviar as medidas de austeridade num dia e passada uma semana apresenta medidas adicionais de contenção orçamental, gera-se uma crise adicional de desconfiança. O mesmo se passa quando são anunciados cortes de subsídios e exactamente no mesmo momento se afirma que essa medida ainda poderá ser alterada!

A retoma económica necessita de políticas internas correctas e de um quadro internacional favorável. Mas não pode haver ambiguidade no discurso nem nas medidas anunciadas sob pena da recuperação ser mais demorada e penosa.
Dizer que estamos falidos hoje e afirmar o contrário amanhã, para além de ser um discurso falacioso, defrauda as expectativas dos agentes e afecta a confiança, factor imprescindível para a recuperação económica. Ou seja, para sermos um país mais eficiente necessitamos de boas políticas aliadas a um discurso coerente, verdadeiro e de bom senso!


Nuno Vaz da Silva
Economista 


Artigo publicado na edição de 07/11/2012 do Jornal "Alto Alentejo"



Comentários à Eficiencia dum Presidente Europeu (de Paulo Monteiro)

Paulo,

Vou adicionar algumas notas ao teu artigo. Mas atençao que percebo pouco de Economia Política, logo nao posso ir demasiado além.

1. Acho que o cenário de guerra na Europa de 1914 e 1939 nao se poderá repetir. Parece que uma das causas dessas guerras foi o grande desenvolvimento económico da Alemanha face à Inglaterra, França e outras potencias europeias. A Alemanha estava a crescer tanto que estava numa posiçao em que sozinha poderia vencer todos os seus rivais. Logo a Alemanha tinha incentivos de iniciar a guerra. Os rivais estavam a perder em crescimento económico e militar para a Alemanha, logo senao entrassem na guerra logo estariam numa situaçao de derrota dali a 10 anos. Por isso também tinham de iniciar e persistir na guerra até ao fim, caso contrário estariam ultrapassados ao fim dum década.

Parece que alguns cientista políticos desconfiam que dadas as condiçoes um cenário estilo Primeira Guerra poderia acontecer eventualmente na Ásia. A China está a crescer rápido e vai ao fim dumas décadas ultrapassar a soma dos rivais como Índia, Taiwan, Japao, Rússia e Coreia do Sul (em termos de PIB absoluto, ainda que o PIB per capita se calhar nao vai alcançar o Japao nem ao fim do século 21).

Assim poderiam existir incentivos para a China iniciar uma guerra nas próximas décadas.

Claro, na prática a China creio que nao iniciou uma invasao doutro país (a nao ser talvez o Tibet) desde há séculos. Houve uma guerra com a Índia nos anos 50 que penso ter sido iniciada pela Índia.

Por isso, nao sei se os cientistas políticos do belicismo estarao correctos sobre a China ou se esta é uma potencia bem mais pacífica.

2. Segundo a teoria económica, os regimes parlamentares sao mais eficientes que os presidenciais porque o Primeiro Ministro tem mais influencia na Assembleia para passar leis. Isto é encontrado num artigo recente dum professor da Kellogg.
 
http://insight.kellogg.northwestern.edu/index.php/Kellogg/article/why_are_presidents_less_effective_than_prime_ministers

Neste artigo, menciona-se que a Uniao Europeia nao tem um verdadeiro Parlamento Europeu nem um verdadeiro Presidente, logo o seu regime político é o mais fraco e ineficiente de todos.


3. Talvez se possa um dia criar um Presidente (cargo ceremonial) e um Primeiro Ministro eleitos da Europa.

Uma vez li que os regimes que tem um Presidente ceremonial (ou seja, com poucos poderes) sao mais eficientes. As sociedades modernas tem diversas cerimónias exigiveis ao Chefe de Estado como receber oficiais estrangeiros e representantes de várias instituiçoes sociais que "distraem da governaçao". Por isso ter um Presidente "corta-fitas" pode ser eficiente por paradoxal que seja. O que ocorre é que assim o Primeiro Ministro corta menos fitas e tem mais tempo para governar.

Aliás, recordo-me que alguns autores nos EUA também defendem que o país deveria ter um regime semi-presidencial. O Presidente é Chefe de Governo e Chefe de Estado ao mesmo tempo, logo se calhar seria necessário existir um corta-fitas para o ajudar a concentrar-se no Governo.

Economista do Banco Central do Chile
O artigo reflecte a opiniao subjetiva do seu autor.

(Como nao sou um entendido em matérias políticas, aceito que existam outras perspectiva e estudos válidos que nao tenha mencionado.)

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Obama, Romney e a Europa


Hoje é o grande dia, vota-se nos EUA! Costuma-se dizer que o rumo da história é influenciado de modo directo pelo resultado das eleições norte americanas. Todos têm uma opinião e um candidato preferido. Mesmo quem vive na Europa, nunca esteve nos EUA e desconhece tudo sobre a cultura norte americana, estaria provavelmente disposto a pagar uns 5 euro para poder votar nestas eleições.

É por isso ainda mais incompreensível que na Europa ainda não elegemos o nosso “Presidente”! Se conseguimos obter uma ligação emocional tão forte em relação aos resultados das eleições nos EUA, com certeza que a maior parte dos cidadãos da União Europeia receberiam de braços abertos a possibilidade de eleger o Presidente da UE. Não me digam que emocionalmente e culturalmente estamos mais distantes da França, Itália ou Espanha que dos EUA, porque não acredito!

Ter um presidente Europeu democraticamente eleito pelos cidadãos da UE é a forma mais eficaz de garantir que a integração económica e política da Europa será completa. E com certeza que o nosso bem estar depende muito mais das boas políticas implementadas pelos líderes Europeus, que das mudanças de humor to Tea Party, das flutuações eleitorais do Midwest e das diferenças entre o “Obama Care” e o “Mitt Care”.  

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Exemplos de boas políticas portuguesas recentes: Descriminalizaçao do consumo de drogas e (talvez) a educaçao



Para verificar que nem tudo em Portugal funciona mal, por vezes convém recordar alguns avanços que se fizeram em temas dificeis. Um dos temas onde Portugal conseguiu lançar uma política inovadora e com algum sucesso foi na descriminalizaçao do consumo de drogas. O combate à droga tem custos bastante elevados tanto em termos de forças policiais como do número de presos afectados ou dos custos de saúde dos consumidores, sobretudo em países como EUA e México. Portugal conseguiu reduzir os custos do combate à droga ao ilegalizar o lado da oferta do produto, mas sendo mais permissivo com os consumidores. Dado que o número de traficantes é bem inferior ao número de consumidores (habituais ou ocasionais), isto permitiu concentrar os esforços policiais no grupo criminal mais relevante ,reduzir os processos na justiça e a populaçao prisional, bem como facilitar o acesso dos consumidores a serviços básicos de saúde. Há 11 anos eu era bem céptico desta política, mas hoje é considerada um caso de sucesso a nível internacional e o tema de vários estudos:

A educaçao é outro problema bem relevante da sociedade portuguesa, dado que vários estudos económicos determinam que a falta de qualificaçoes da nossa força laboral explica mais de 1/3 das diferenças entre Portugal e a Alemanha. 

 
A OCDE documenta que a taxa de graduaçao do ensino secundário e superior é inferior à maioria dos países da OCDE mesmo no segmento de trabalhadores com 25 a 34 anos. Ou seja, a falta de qualificaçoes em Portugal é um problema tanto dos jovens, como das geraçoes anteriores. Ademais, nem sequer é um problema de falta de recursos humanos e financeiros investidos no sector da educaçao. A OCDE documenta que Portugal gasta mais que a média em proporçao do PIB no sector educativo. Outro dado interessante é que os professores portugueses em todos os escaloes (do pré-primário ao secundário) tem salários mais altos que a média dos países da OCDE e até superiores a países desenvolvidos como a França. Os nossos professores parecem trabalhar algumas horas mais que a média da OCDE, mas nao o suficiente para justificar a diferença salarial. Logo também nao é um problema de má remuneraçao dos professores.

O Governo anterior tentou resolver este problema a partir duma política de avaliaçao dos professores, a qual foi bem avaliada por uma equipa de investigadores da OCDE:


Ademais, o ultimo estudo de PISA reporta que os alunos portugueses subiram o seu desempenho na Língua Nacional e em Matemática de 2006 para 2009. De acordo ao PISA 2009, os alunos portugueses melhoraram nao só em média, mas em toda a distribuiçao de estudantes desde o percentil 5 (os alunos mais fracos) ao percentil 95 (os melhores alunos). Isto sao realmente notícias excelentes, dado que PISA 2009 já coloca os alunos de 15 anos em Portugal a um nível similar aos da República Checa e outros países com um PIB per capita comparável ao nosso.

http://nces.ed.gov/pubs2011/2011004_1.pdf

Todavia, eu ainda estou um pouco céptico dos resultados de Portugal no PISA 2009. Estes estudos só sao realizados a cada 3 anos; ou seja, só existem dados de 2003, 2006, e 2009. Dado que o estudo se baseia numa amostra aleatória de alunos e escolas em cada país existe a possibilidade de que um sorteio favorável tenha escolhido melhores escolas em Portugal que o normal. Assim, julgo que existe uma possibilidade muito forte de que os ganhos de Portugal no PISA 2009 tenham sido “sorte ou acaso de sorteio” e nao uma melhoria concreta. Outra possibilidade pode ser que a queda de natalidade em Portugal tenha reduzido significativamente o número de alunos em dificuldades. Esperemos entao ansiosamente pelos resultados do PISA 2012. Aí vamos poder verificar se realmente os ganhos dos nossos alunos estao a melhorar ou se foi pura sorte de sorteio em 2009.

Carlos Madeira
Economista do Banco Central do Chile
O artigo reflecta meramente a opiniao pessoal do seu autor.