segunda-feira, 24 de setembro de 2012

A Crise do Euro III - “Fuga de capitais e instabilidade financeira na zona euro”


Nos meus textos anteriores vimos que o Euro não parece ser a causa dos problemas que vários países europeus enfrentam correntemente. Senão o Euro onde está a origem? A causa tem de ser comum não só aos países da periferia do Euro como também aos outros países que têm sido significativamente afectados pela Grande Recessão. Os factores que conduziram à Grande Recessão são vários e complexos (confesso que não compreendo bem muito do que aconteceu – se fosse óbvio então governos, instituições internacionais, reguladores, economistas ou investidores, entre outros agentes, teriam tomado medidas que prevenissem o problema). A meu ver a explicação parece estar por detrás da desregulação do sector financeiro e liberalização dos movimentos de capitais. O trabalho de Reinhart e Rogoff (2008) mostra evidência empírica de que estes factores estão tipicamente associados a crises financeiras.
A liberalização de movimentos de capitais após o tratado de Maastricht, que se tornou efectivo em 1993, levou a um grande movimento de capitais dos países que constituem hoje o centro da zona Euro para os países da periferia do Euro (e outros países, como a Islândia que também faz parte do Espaço Económico Europeu), onde por terem sistemas financeiros menos desenvolvidos seria possível obter melhores rendimentos. Isto explica os grandes excedentes da balança de transacções correntes dos países do centro do Euro (como Alemanha e Holanda) e os défices dos países da periferia do Euro e Islândia (onde a desregulação do sector financeiro em 2001 terá contribuído muito para o exarcebar da situação). Muitos atribuem ao Euro o principal papel por detrás dos défices da periferia devido a estes terem perdido competitividade em relação à Alemanha sem terem à sua disponibilidade uma moeda própria que corrigisse o desequilíbrio. Parece-me pouco provável que tivesse sido esse o caso pois a Holanda também perdeu competitividade em relação à Alemanha e teve excedentes comerciais e a Islândia, que não é membro do Euro, foi de longe o país que teve o maior défice comercial neste período (também a Polónia teve elevados défices neste período sem ser membro do Euro, o mesmo se pode dizer da Eslováquia que só aderiu em 2009 ou da Estónia que apenas aderiu em 2011). A investigação feita até agora em economia, não encontrou uma relação empírica forte e robusta entre desequilibríos de taxas de câmbio e os défices comerciais (veja-se por exemplo os trabalhos de: Auboin e Ruta, 2012; Huchet-Bourdon e Korinek, 2011 ou Chinn e Wei, 2012).
Os países com grandes centros financeiros, como o Reino Unido e principalmente os EUA, também tiveram grandes défices comerciais em finais dos anos 90 e inícios do século XXI. Neste caso a entrada de capitais tinha como principal origem os países do leste da Ásia (sobretudo China) e também do médio oriente (onde preços de petróleo elevados permitiram poupanças elevadas). As taxas de poupança excessivamente elevadas nesses países (o estudo de Wei e Zhang, 2011, sugere o desequilíbrio do rácio entre sexos de jovens adultos como um dos factores que explica as taxas de poupança muito elevadas na China) não encontram oportunidades de investimento adequadas nos seus mercados financeiros muito pouco desenvolvidos e por isso fluíram para mercados financeiros muito sofisticados como o dos Estados Unidos (para o que também terá contribuído, a política cambial da China, de manter um valor reduzido da sua moeda, de forma a favorecer as suas exportações).
O estudo de Ito e Chinn (2007) confirma empiricamente este fenómeno um pouco estranho - enquanto em economias industrializadas (como as europeias) o crescimento do sector financeiro leva aumentos do défice da balança de transacções correntes, o oposto se verifica em economias em desenvolvimento.
Em teoria a liberalização de movimentos de capitais é algo.de positivo pois permite a alocalização do capital onde este é mais eficiente. A minha especulação para a associação entre liberalização de movimentos de capitais e crises financeira é a seguinte. Inicialmente o capital flui para os países onde pode obter maiores retornos, no entanto quando as melhores oportunidades de investimento se esgotam a direcção dos movimentos de capitais mantêm-se. A razão para isso pode ser por os detentores dos capitais não se importarem do sector financeiro os direccionarem para projectos de valor duvidoso pois confiam que em caso de necessidade o governo intervirá para salvar da falência essas instituições financeiras (ou seja o sector financeiro benefecia de um subsídio implícito à sua actividade). Os agentes dos bancos têm incentivo para fazerem empréstimos mesmo quando os projectos são duvidosos pois estes só se revelarão como tal no médio ou longo prazo (entretanto os agentes já receberão bónus referentes a concretização desses mesmo negócios). Os clientes que recebem os empréstimos dos bancos também têm incentivo a fazer o investmento mesmo quando se trata de um projecto de valor duvidoso pois caso este se prove de facto negativo não terão de pagar o empréstimo na totalidade. Isto explica o porquê de se ter visto em tantos países elevados montantes de capital investidos no mercado da habitação. Enquanto a oferta não se ajusta à procura (demora tempo para construir novas habitações e obter licenças para as fazer) os preços crescem e permitem o retorno do investimento. Quando a oferta se ajusta à procura (ou a excede) os preços das habitações caem e os investidores sofrem perdas. Após isto a entrada de capitais reverte-se e o país sofre uma contração brusca da disponibilidade do crédito e entra em recessão (sem crédito é difícil para as empresas desenvolverem novos projectos ou expandirem os que já existem). As finanças públicas também são afectadas de forma muito negativa devido aos resgates do sector financeiro mas sobretudo (veja-se de novo o trabalho de Reinhart e Rogoff, 2008) perda de receitas (pois empresas em dificuldades não pagam impostos) e aumentos de custos em despesas sociais (como subsídios de desemprego). Os países com excedentes comerciais também são afectados de forma negativa (mas de forma menos extrema) pois os seus bancos veêm uma redução do valor dos seus activos no exterior (bancos de França e Alemanha sofreram perdas elevadas no mercado de hipotecas subprime dos EUA e têm também grande exposição à dívida grega) e devido à redução da procura externa dos seus produtos.

Figura 1: Taxa de crescimento de emprestimos bancários

A figura 1 em cima mostra a taxa de crescimento de empréstimos bancários para vários países do Euro. Pode-se ver como a contração do crédito foi particularmente brusca na Irlanda (o que explica o porquê da Irlanda ter sido tão afectada pela Grande Recessão apesar de até ter um ambiente económico bastante favorável) e Grécia.
Não foi só o sector privado que viu o seu acesso ao crédito afectado. Inicialmente os governos não foram afectados mas em 2010 a Grécia viu a sua taxa de juro subir muito significativamente. Em 2011 Portugal e Irlanda também viram o seu custos de acesso ao crédito subirem de forma muito significativa. Podemos ver isto na figura 2 em baixo que nos mostra a evolução das taxas de juro de longo prazo para vários países. Podemos ver que durante o período de abundância de capital os países da periferia viram as suas taxas de juro descerem muito significativamente (o diferencial que antes existia para os países do centro praticamente desapareceu). Com a Grande Recessão e a reversão dos movimentos de capitais o diferencial de taxas de juro entre a periferia e o centro resurgiu. Aqui penso que de facto o Euro teve um papel importante na gravidade da crise. Os únicos países que viram as suas taxas de juro aumentarem de forma tão significativa foram os países da periferia do Euro (podemos ver por exemplo que tanto EUA, Reino Unido e Islândia não foram afectados da mesma forma). De Grauwe (2011) explica que uma das razões para isto ter acontecido é que por não terem controle da moeda em que a sua dívida é emitida, os países que fazem parte de uma união monetária são mais vulneráveis a profecias que se autocumpram (por terem receios de incumprimento da dívida os credores exigem pagamentos de juros mais elevados e isso leva à realização dos seus receios). De Grauwe (2012) mostra evidência de que uma profecia autocumprida por parte dos mercados parece estar por detrás de uma parte importante deste aumento dos custos de financiamento dos países da periferia do Euro.

Figura 2: Taxas de juro de long prazo em percentagem anual


João Madeira
Universidade de Exeter

Referências:

Os dados da figura 1 podem ser obtidos do website do BCE:

Os dados para a figura 2 podem ser obtidos no website da OCDE: http://stats.oecd.org/

Auboin, Marc & Ruta, Michele (2012). "The Relationship between Exchange Rates and International Trade: A Literature Review," CESifo Working Paper Series 3868.

Chinn, Menzie & Wei, S.J. (2012). “A faith-based initiative meets the evidence: Does a more flexible exchange rate facilitate current account adjustment?” Review of Economics and Statistics.

De Grauwe, Paul (2011). “The Governance of a Fragile Eurozone.”
De Grauwe, Paul & Ji, Yuemei (2012). “Mispricing of Sovereign Risk and Multiple Equilibria in the Eurozone,” mimeo, Jan 2012
Huchet-Bourdon, Marilyne & Korinek, Jane (2011). "To What Extent Do Exchange Rates and their Volatility Affect Trade?," OECD Trade Policy Working Papers 119.

Ito, Hiro & Chinn, Menzie (2007). "East Asia and Global Imbalances: Saving, Investment, and Financial Development," NBER Working Papers 13364.

Reinhart, Carmen M. & Rogoff, Kenneth S. (2008). "Banking Crises: An Equal Opportunity Menace," NBER Working Papers 14587.

Wei, Shang-Jin & Zhang, Xiaobo (2011). "The Competitive Saving Motive: Evidence from Rising Sex Ratios and Savings Rates in China," Journal of Political Economy, vol. 119(3), pages 511 - 564.

A Crise do Euro II - “Legislação laboral e desemprego: os custos da rigidez”


Nos países Anglo-Saxónicos o Euro parece-me ser visto de forma bastante negativa. Muitos veêm o Euro como uma instituição que limita o dinamismo das economias que o adoptaram. À tabela 1 em baixo desmente essa ideia. Sim, é verdade que até à Grande Recessão a Islândia, o Reino Unido e os EUA cresceram mais do que a maioria dos países da zona do Euro, mas também era esse o caso antes da adopção do Euro.

Tabela 1: Taxas médias de crescimento anuais do produto em percentagem

Também é verdade que o país que mais cresceu nesse período foi a Irlanda, um dos membros do Euro. A Holanda, outro membro do Euro tambem teve um bom desempenho. O que explica então a falta de dinamismo das economias que pertencem ao Euro? Eu penso que a explicação está sobretudo em regulação escessiva que resulta num obstáculo ao crescimento económico. Um caso paradigmático é o do mercado laboral. A tabela 2 mostra uma medida de protecção laboral para os países da OCDE e parece confirmar a hipótese de um efeito negativo no crescimento económico de regulação laboral excessiva. As únicas economias que conseguiram ter taxas de crescimento robustas de forma sustentada (a Grécia e Espanha conseguiram-o mas apenas durante um período relativamente curto) são justamente aquelas que têm menor regulação do mercado laboral (Islândia, Irlanda, Reino Unido, EUA e Holanda).

Tabela 2: Índice de proteção do emprego da OCDE

Será coincidência? Penso que não. Excessiva protecção laboral limita o crescimento da produtividade (limitando por exemplo a deslocação de trabalhadores para actividades onde sejam mais úteis) e desencoraja o investimento (a criação de uma empresa tem sempre um risco significativo, se o investidor sabe que mais tarde não pode voltar atrás então pode muito bem decidir não o fazer).
Para além da excessiva regulação laboral ser um obstáculo sério ao potencial económico de longo prazo de muitos dos países do Euro eu penso que (ao contrário do Euro) também desempenhou um papel muito importante por detrás da situação verdadeiramente trágica que vários dos países da periferia do Euro se encontram hoje. A figura 1 mostra-nos como as taxas de desemprego dos países da periferia aumentaram de forma dramática após a Grande Recessão. Como vimos na tabela 1, a Islândia e Irlanda sofreram tanto como a Grécia em termos de redução do produto. Em termos de perda do produto o Reino Unido foi afectado de forma semelhante a Espanha, Itália e Portugal. Mas podemos ver na figura 1 que em termos de aumento do desemprego as economias destes países responderam de forma bastanta diferente. Em 2011 a taxa de desemprego da Islândia foi de 7%, a da Irlanda foi de 14% e a da Grécia 18%. No mesmo ano, Reino Unido, Espanha, Itália e Portugal tiveram taxas de desemprego de 8%, 22%, 8% e 13% respectivamente. Será coincidência que os dois países (Espanha e Grécia) que têm mercados laborais mais rigídos são precisamente os mesmos que sofrem de maior desemprego? Por outro lado, dos países com mercados laborais menos regulados apenas a Irlanda enfrenta uma das taxas de desemprego mais elevadas (dos países mais regulados apenas a Itália não teve um aumento dramático). Apesar do desemprego na Islândia e Reino Unido ter aumentado, não atingiu os níveis dos países que sofreram de forma similar em termos de redução do produto.

Figura 1: Taxa de desemprego

O que poderá explicar isto? Um estudo recente de Robert Shimer (2012) indica que o aumento dos números de desemprego é explicado sobretudo pela diminuição de contratações de trabalhadores e não pelo aumento dos despedimentos. Ou seja, a excessiva legislação laboral pode contribuir para o aumento do desemprego numa recessão pois os efeitos negativos em termos de redução de novas contratações superam os efeitos positivos em termos de redução de despedimentos.
A excessiva regulação contribuiu também de outra forma para a amplificação dos efeitos da recessão nos países da periferia (para aqueles interessados em evidência “anedótica” sugiro a leitura do blog do John Cochrane que descreve as situações difíceis que empresas enfrentam em países da periferia). Olhemos para a tabela 3 que nos mostra a proporção de empresas por dimensão (medida em termos de número de trabalhadores) em várias economias europeias.


Tabela 3: Percentagem de empresas por número de trabalhadores (ano de 2005)

Podemos ver, que exceptuando a Irlanda (e também, até um certo ponto, Portugal), os países da periferia do Euro têm uma proporção muito inferior de médias e grandes empresas em relação aos outros países europeus (o que provavelmente indica, que regulações excessivas, dificultão a expansão das empresas a partir de uma certa dimensão, e/ou a regulação protege as actuais grandes empresas de novos competidores). Como pode isto explicar que a periferia do Euro tenha sido afectada de forma mais intensa pela Grande Recessão? A contração da disponibilidade de crédito tem sido a característica determinante da Grande Recessão. Ora, são justamente as pequenas empresas que mais necessitam do acesso ao crédito e mais afectadas são pelos ciclos económicos (veja-se, por exemplo, o estudo de Gertler e Gilchrist, 1994). Economias que têm uma maior proporção de pequenas empresas são portanto mais vulneráveis a contracções de crédito. As empresas de menor dimensão também exportam menos (na UE apenas 8% das pequenas e médias empresas exportam enquanto 28% das grandes empresas exportam) e por isso reduzir os obstáculos que impedem as empresas de expandir o seu negócio também ajudaria estes países a exportar mais.

João Madeira
Universidade de Exeter

Referências:

Os dados para as tabelas 1, 2 e figuras 1 podem ser obtidos no website da OCDE: http://stats.oecd.org/

Os dados da tabela 3 podem ser obtidos do website da CE:

O blog do John Cochrane pode ser encontrado aqui: http://johnhcochrane.blogspot.co.uk/

Gertler, Mark & Gilchrist, Simon (1994). "Monetary Policy, Business Cycles, and the Behavior of Small Manufacturing Firms," The Quarterly Journal of Economics, vol. 109(2), pages 309-40, May.

Shimer, Robert (2012). "Reassessing the Ins and Outs of Unemployment," Review of Economic Dynamics, vol. 15(2), pages 127-148, April.

A Crise do Euro I - “Mitos e Factos da crise do Euro”

A crise do Euro é talvez a questão económica mais importante neste momento e por isso foi o tópico que escolhi para este artigo. Apesar de ser um assunto muito debatido, acho que a discussão nem sempre tem sido a melhor, pois tem sido demasiado colorida por simpatias partidárias e sobretudo orgulhos  nacionais. A meu ver, os factos devem ser a base da discussão. Afinal, sabiamente, é costume dizer-se que contra factos não há argumentos. Comecemos portanto por ver se as opiniões frequentemente emitidas sobre esta questão são suportadas pelos factos ou se não serão antes mitos com pouco fundamento.
A opinião generalizada sobre a crise do Euro é de que os países da periferia (Espanha, Grécia, Irlanda, Itália e Portugal) que neste momento encontram dificuldades sérias do financiamento da sua dívida pública caíram nessa situação por terem durante anos abusado do seu estatuto de membros do Euro para financiarem grandes aumentos de gastos públicos à custa do virtuosismo dos países do centro (Alemanha, França e Holanda, entre outros). Mas será tal verdade? Olhemos para a evolução da divida de vários países na tabela em baixo.

Tabela 1: Dívida Pública em percentagem do produto

Podemos ver que no período após a adesão ao Euro em 1999 (2001 no caso da Grécia) e 2007 (anterior à Grande Recessão) apenas três membros da zona euro aumentaram a divída: Alemanha, França e Portugal (neste grupo de “infractores” talvez devamos também incluir a Grécia que recorreu a truques financeiros para esconder a verdadeira dimensão da sua divída). Entre os países virtuosos que reduziram a sua dívida de forma muito significativa temos Espanha, Holanda, Irlanda e Itália. O grande crescimento na dívida pública em Espanha, Grécia, Irlanda, Itália, e Portugal só ocorre após 2008. Ou seja o aumento significativo da dívida pública nestes países é consequência da Grande Recessão (a despesa dos estados aumenta devido à necessidade de pagar subsídios de desemprego entre outras despesas sociais e as receitas caem pois as empresas geram menos lucros) e não o resultado de um comportamento imoral dos países da periferia. A imagem generalizada de imoralidade dos países da periferia (é sintomático que os media se referem a estes países como PIIGS) e virtuosismo dos países do centro não corresponde portanto ao que na realidade ocorreu.
Para aqueles que pensam que o problema das finanças públicas dos países da periferia foi agravado por serem membros do Euro comparemos o que se passou nesses países com o que aconteceu na Islândia e Reino Unido (que não pertencem ao Euro) após a Grande Recessão. Entre 2007 e 2010 a dívida da Grécia aumentou de 106% do PIB para 148%. No entanto, no mesmo período a dívida da Islândia aumentou de 23% do PIB para 81%. Em Portugal aumentou de 67% para 88% e o Reino Unido de 43% para 86%. Perante estes factos parece-me dificil de argumentar que as financas públicas dos países da periferia seriam melhores caso nao estivessem no Euro.
Outra opinião que tem sido difundida é que a adopção do Euro levou a uma expansão desmesurada do crédito nos países da periferia do Euro resultando em bolhas especulativas nos mercados de habitação desses países (e exarcebando os efeitos da Grande Recessão para a periferia). O gráfico em baixo (Figura 1) permite-nos examinar até que ponto tal é verdade (infelizmente o índice não tem dados disponíveis para Grécia, Islândia ou Portugal).

Figura 1: Índice de Precos de Habitação


O gráfico claramente demonstra que em finais do século XX e inícios do século XXI houve um aumento significativo dos preços da habitação em todos os países considerados (com excepção da Alemanha) seguido de uma queda após a Grande Recessão. Mas o padrão é o mesmo para os países da periferia como Espanha e Irlanda e para países do centro como França e Holanda. O padrão também é o mesmo nos países que não são membros do Euro (EUA, Reino Unido e Nova Zelândia). Fará sentido culpar o Euro pelo aumento dos preços da habitação em Espanha e Irlanda? Se sim, porque não culpar o dólar ou a libra por o mesmo ter ocorrido nos EUA e Reino Unido?
Outra explicação comum para a grave situção de hoje dos países da periferia é de que estes perderam competitividade em relação ao centro devido a produtividade do trabalho na periferia não ter crescido tanto como os salários. A figura 2 (em baixo) mostra a evolução dos custos de trabalho em diversos países. Podemos ver claramente que os países da periferia perderam competitividade em relação à Alemanha que manteve os seus custos laborais praticamente constantes desde a adopção do Euro. No entanto podemos ver que a evolução dos custos laborais na periferia foi bastante semelhante à de outros países do centro como França e Holanda e à de países que não fazem parte do Euro como EUA, Reino Unido e Islândia. Curiosamente a Islândia foi o país que mais competitividade perdeu em relação à Alemanha desde 1999. Perante estes factos é difícil ver a adopção do Euro como a causa da perda de competitividade para a Alemanha ou dos actuais problemas que a periferia enfrenta.

Figura 2: Custos Unitários do Trabalho
Já vimos que a imagem de comportamento imoral dos governos da periferia não passa de um mito (que infelizmente tem contribuído para que as populações dos países do centro pensem que os habitantes da periferia não merecem solidariedade por parte dos seus governos). Mas e a imagem de que o Euro é uma instituição que benefeciou sobretudo os países do centro? Para responder esta questão olhemos para a tabela 2 que mostra as taxas de crescimento médias antes e após a criação do Euro em 1999 (é de notar que os números para a Grécia são semelhantes se considerássemos antes os períodos entre 1992-2000 e 2001-2007).

Tabela 2: Taxas médias de crescimento anuais do produto em percentagem

Podemos ver que até à Grande Recessão apenas três dos membros do Euro cresceram menos do que antes da adopção do Euro (Holanda, Irlanda e Portugal) mas que a generalidade (Alemanha, Espanha, França, Grécia e Itália) cresceu mais. Terá sido isto devido simplesmente aos anos após a adopção do Euro terem sido melhores para a economia mundial? Aparentemente não, pois no mesmo período o Reino Unido cresceu a um ritmo ligeiramente inferior e os EUA a um ritmo significativamente inferior. O bom desempenho relativo do centro em relação à periferia só ocorre após a Grande Recessão. Será o Euro responsável por esta diferença? Também aqui penso que os factos desmentem esta ideia. Entre os países que mais sofreram desde o inicío da Grande Recessão encontramos membros da periferia do Euro como a Grécia e Irlanda mas encontramos também a Islândia que não pertence ao Euro. Entre  outros países que sofreram significativamente com a Grande Recessão encontramos membros da periferia do Euro como Espanha, Itália e Portugal mas também o Reino Unido que possui a sua própria moeda. Por isso também parece-me ser um mito considerar que o Euro benefeciou mais o centro do que a periferia ou que o Euro tem sido um dos principais factores pela grave crise económica que afecta os países da periferia nestes anos recentes (infelizmente este mito tem contribuído para um sentimento de grande antagonismo dos cidadãos da periferia para com os países do centro).

João Madeira
Universidade de Exeter

Referências:

Os dados para as tabelas 1, 2 e figura 2 podem ser obtidos no website da OCDE: http://stats.oecd.org/

Os dados da figura 1 podem ser obtidos do website do FRB Dallas:

domingo, 23 de setembro de 2012

Um gráfico interessante sobre a TSU e algumas ideias...


Dado os diversos posts recentes no nosso Blog, não consigo resistir e tenho que partilhar este gráfico proveniente do WSJ que, já agora, nos oferece um interessante artigo sobre a polémica TSU.  

Analisemos os dados. Para evitar confusões, comparar com os EUA não vale, dada as óbvias diferenças relativas aos sistemas de saúde na Europa e no outro lado do Atlântico. 

É curioso verificar que nesta lista de países, os 3 países onde a TSU global é mais baixa são exactamente aqueles em que as troikas intervieram. Continuo convencido que os países da zona euro mais vulneráveis às crises de dívida soberana, são aqueles cuja capacidade fiscal é menor. Acho que a conclusão do Carlos é a mesma. Não sei quais os determinantes desta capacidade fiscal, mas acho que a produtividade é um dos principais factores.

Noentanto, aumentar a incidência da TSU sobre os trabalhadores em 7 pontos percentuais, representaria uma enorme perda de rendimento para as famílias. Já sei que a incidência legal e a incidência económica não são a mesma coisa, mas num mundo de salários nominais rígidos, é difícil imaginar que as famílias não sofreriam um tremendo abalo. 

Também tenho dificuldades em compreender por que motivo a transferência da incidência legal da TSU  das empresas para os trabalhadores deveria ter um impacto significativo sobre o emprego. Admitindo que os salários são efetivamente rígidos e que portanto os custos do trabalho diminuiriam de facto, acho que o impacto negativo sobre a procura interna teria provavelmente um impacto muito mais directo. Para mais, se é certo que os salários são rígidos, é inevitavel imaginar que a instabilidade em termos de concertação social obrigaria as empresas a absorver parte da transferência legal da incidência da TSU. A transferência económica seria portanto menor. Finalmente, entendo que haja um eventual efeito positivo na procura de trabalho. Mas não serão os desincentivos do lado da oferta muito mais importantes. Parece-me absurdo imaginar que um aumento de impostos aumente o emprego... até no mundo dos DSGEs! Felizmente, parece-me que assistimos a uma "U turn" em relação a esta medida.  

Finalmente, reparem que uma incidência da TSU sobre as empresas de 20.85% não impediu a Alemanha de obter um tremendo crescimento do emprego nos últimos anos. É que a final de contas, não há nada mais eficaz que um vigoroso crescimento da produtividade para aumentar o emprego!

Estudo económico apoia a desvalorizacao fiscal via TSU

Um estudo de 3 economistas de Harvard e Princeton apoia a medida da TSU como forma de incentivar as exportacoes:

http://www.project-syndicate.org/commentary/a-devaluation-option-for-southern-europe

http://www.princeton.edu/~itskhoki/papers/FiscalDevaluations.pdf

Isto concorda com a posicao de economistas como o Ricardo Reis que sugerem esta via para equilibrar a balanca comercial e exportacoes portuguesas. Claro que a medida tem custos sociais e uma carga fiscal acrescida para os consumidores-trabalhadores. Mas se calhar é melhor do que vermos o desemprego a subir, empresas que nao investem, e capitais que fogem para bancos alemaes.

Nao existem almocos gratis. Nao estou certo que seja a melhor medida para o pais. Mas penso que no minimo os partidos politicos deveriam debater as vantagens e custos da medida.

Em Portugal prejudicam-se as empresas médias e grandes em favor das Pequenas e Muito Grandes

Muitos economistas tem chamado a atencao para a falta de produtividade das empresas portuguesas. Os dois principais factores por detrás de Portugal ter metade do PIB per capita alemao sao: educacao e produtividade. A educacao explica uns 30%, mas a produtividade explica o resto.

Um professor de Stanford, Nick Bloom, colocou uma equipa de MBAs a avaliarem da mesma forma uma amostra representativa de empresas de diversos paises, incluindo Portugal. Ora, em Portugal, Bloom descobriu algo raro. Existem 25% de empresas portuguesas com as mesmas boas práticas de gestao que o estrangeiro, mas as outras 75% pareciam uma desorganizacao total.

http://www.stanford.edu/~nbloom/w16019.pdf

http://www.stanford.edu/~nbloom/JEP.pdf

Outros autores alimentam a evidencia porque isto ocorre em Portugal. Portugal tem uma serie de leis que defendem os empresarios pequenos e ineficientes de competidores maiores e mais produtivos (Braguinsky, Branstetter, Regateiro, 2011). Isto impede as empresas portuguesas de usarem a escala mais eficiente e as melhores tecnologias.

http://www.voxeu.org/article/incredible-shrinking-portuguese-firm

http://www.nber.org/papers/w17265.pdf?new_window=1

Ora, assim nao admira que a produtividade em Portugal seja má! Nós protegemos os maus empresarios e depois dizemos que sao pouco produtivos. O sinal evidente disto é que Portugal tem uma grande quantidade de empresas pequenas e pouco produtivas. Em paises como os EUA as empresas pequenas e pouco produtivas morrem e dao lugar a outras melhores. Em Portugal nao...

Outro economista, Pedro Martins, descobriu que parte das regulacoes que prejudicam as boas empresas em Portugal sao os requerimentos para despedir. Portugal requer que empresas com mais de 20 trabalhadores se macem com contactos aos sindicatos e outras burocracias antes de despedir. Isto leva os trabalhadores portugueses a nao sairem para empresas novas onde os custos de despedir sao mais baratos e a estar nas empresas ineficientes e pouco produtivas.

http://ftp.iza.org/dp3112.pdf

Mais recentemente, eu descobri um dado curioso. O economista de UCLA, Hugo Hopenhayn, estima a distribuicao de empresas em EUA, India, China, e Mexico. Curiosamente, a China e EUA sao relativamente parecidos, ou seja os Chineses parece que escolhem a melhor escala produtiva para as suas empresas. Comparando esses paises com Portugal parece que Portugal está distorcido nao só para favorecer muitas empresas pequenas, mas também para privilegiar empresas muito grandes (as firmas de mais de 10000 trabalhadores). Ou seja, nao só beneficiamos os pequenos capitalistas ineficientes, mas também os grandes "crony capitalists". Nao vou dar aqui nomes...

http://www.bcentral.cl/conferencias-seminarios/seminarios/pdf/Hugo_Hopnehayn.pdf

Em Portugal os trabalhadores nao sao oprimidos, mas as empresas sim!

Como escrevi num artigo anterior, os trabalhadores portugueses pagam impostos similares aos de outros paises desenvolvidos e que tem um Estado social como o nosso. O IVA, talvez o principal imposto, também tinha uma taxa similar ao resto da Europa, pelo menos até ao inicio da crise de 2008. Logo nem os trabalhadores portugueses sao escravos, nem as familias sao de forma alguma oprimidas.

Existe sim uma classe oprimida pelo fisco em Portugal, os empresarios, mas estes infelizmente sao vistos como ricos e vilipendiados por todos. Este é um resumo da comparacao OCDE para as taxas de IRC dos seus membros. Existe algum padrao? Sim, este é o unico imposto em Portugal claramente acima do praticado no resto da OCDE. Pior, todos os países de rendimento similar ao nosso e que competem com as nossas exportacoes tem taxas de IRC mais baixas: Chile, Rep Checa, Eslovaquia, Eslovenia, Hungria, e Polónia.


Table II.1. Corporate income tax rate

Central government corporate income tax rate 
Country
Canada
15.0
Chile*
17.0
Czech Republic
19.0
Estonia*
21.0
France*
34.4
Germany*
15,825 (15,0)
Greece
20.0
Hungary*
19.0
Iceland* 
20.0
Ireland
12.5
Israel*
25.0
Japan
30.0
Luxembourg*
22.05 (21.0)
Poland*
19.0
Portugal* 25.0
Slovak Republic
19.0
Slovenia
20.0
Switzerland*
8.5
Turkey
20.0
United Kingdom*
24.0
United States*
35.0



Além do mais, a teoria económica sobre o sistema fiscal óptimo diz claramente que em steady-state só devem haver impostos sobre o trabalho e o imposto sobre o capital deve ser 0! Este é um resultado muito robusto e se verifica em centenas de estudos económicos, que parte de base apenas de dois pressupuestos: o capital foge tanto a nivel geografico (muda de pais), como no tempo (as empresas deixam de investir). Ora, os trabalhadores nao fogem de pais em demasia, nem fogem no tempo (a biologia humana garante que queremos sempre comer e trabalhar para isso, e também garante que queremos sempre ter sexo e filhos). O sistema fiscal optimo deve taxar o factor que nao foge! É injusto, mas a vida é assim. Votar com os pés é eficaz.

Os Suicos aprenderam isto há mais de 100 anos. Nao vale a pena taxar o capital. Deves é convencer o capital a vir para o teu país. Isto verifica-se nos dados OCDE. A Irlanda demorou mais tempo a descobrir esta verdade. Em 1985 estavam igual ou pior que Portugal, mas depois copiaram os Suicos. Vejam só onde estao...

Eu penso que existe um grande problema da sociedade portuguesa em relacao a politica económica. Como povo passámos por uma experiencia histórica de pobreza e isso leva a que queiramos privilegiar a caridade como principio em tudo, seja no sistema fiscal, seja nas leis de arrendamento ridiculas, seja na legislacao laboral que condena os empresarios a pagar 3 anos de salario para despedir seja quem for.

Eu percebo o principio da caridade como objetivo, mas a lei económica por vezes é contra-intuitiva. As empresas nao estao no negócio da caridade! As empresas vao investir no nosso pais, tal como na Suica ou Irlanda, se os ganhos prometem, nao porque o nosso povo é pobre, sofredor, e necessitado. Julgo que boa parte das politicas económicas se resolviam se retirassemos a caridade do mundo empresarial e a limitássemos mais ao mundo do Estado social. Os Suicos tem Estado social, mas nao tem empresas obrigadas a pagar 3 anos de salario por despedimento...



sábado, 22 de setembro de 2012

TSU

http://economicofinanceiro.blogspot.com/2012/09/quais-as-alternativas-transferencia-da.html

http://economicofinanceiro.blogspot.com/2011/05/taxa-social-unica-sera-uma-solucao-para.html

Posso dizer que concordo em absoluto com os artigos do Cosme Vieira. O objetivo de reduzir a TSU é: 1) reduzir os custos das empresas para que estas aumentem o emprego; 2) reduzir os salarios liquidos dos trabalhadores para que diminua o consumo interno e aumentem as exportacoes.

Ora, é isto o que os paises com moeda flexivel fazem todos para equilibrar as suas contas e sair da crise. Sim, há empresarios que sao contra. O filho do Belmiro já disse que isto vai prejudicar a SONAE, porque reduz o consumo das familias. Espera aí? Mas reduzir o consumo das familias é justamente o objetivo da medida. A ideia é produzir mais bens de investimento e exportar mais para crescer, nao era consumir mais.


sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Acrónimos, Permutações e Negociações


IGSI
GISI
GSII
ISGI
ISIG
IGIS
SIGI

Por mais que eu tente, não consigo encontrar nenhum acrónimo que faça sentido. Falta-me uma consoante e um P daria muito jeito. E portanto não se percebe por que é que Portugal está ausente desta reunião importante. Será esta uma distracção da diplomacia ou um desacordo entre os GIPSI sobre a melhor forma de negociar com as troikas...?

Paulo S Monteiro

Neuroeconomia #1


Será o comportamento dos jovens tão diferente do dos adultos na tomada de uma decisão económica?
Suponha-se uma transacção simples em que temos um jovem A que quer vender um determinado bem, como por exemplo um livro, a um jovem B. O problema em causa é: quanto dinheiro está o jovem A disposto a aceitar pela venda do livro e quanto dinheiro está o jovem B disposto a pagar pela compra do livro.
Na situação descrita acima parece óbvio que o jovem A valoriza mais o livro e estará disposto a aceitar um preço maior do que o jovem B estará disposto a pagar por esse mesmo livro.
Suponha-se ainda que estes dois jovens são estudantes universitários, recebem uma mesada dos pais, não pagam impostos, não têm de pagar a renda da casa, entre outras despesas que estão afectas apenas aos adultos. Estas condições alteram de alguma forma a decisão de compra e venda do livro?
Têm sido efectuados alguns estudos que comprovam que o comportamento económico numa situação como esta é semelhante entre jovens e adultos. A experiência dos adultos, mesmo aqueles que a detêm ao nível da negociação, leva-os a uma disponibilidade muito maior em aceitar do que pagar por um determinado bem.
A questão aqui presente prende-se com o efeito de dotação, que refere que a disponibilidade de uma pessoa em aceitar compensação por um bem é maior que a sua disponibilidade para pagar esse mesmo bem, a partir do momento em que o detém. O efeito de dotação pressupõe que valorizamos mais os bens que detemos do que bens idênticos que não estão sob a nossa propriedade. Assim, quem compra um bem estará sempre disposto a pagar menos por ele do que quem o vende.
Claro que esta teoria coloca em causa o princípio da economia tradicional que nos diz que a valorização de um bem não deve ser afectada pela propriedade desse mesmo bem, assumindo que o bem detém o mesmo valor antes e depois de ser comprado.
Em termos de comportamento económico, e no que se refere ao efeito de dotação, podemos concluir que a experiência não diferencia a tomada de uma decisão de compra e venda entre jovens e adultos.