terça-feira, 29 de outubro de 2019

A Fundação Robinson, uma insolvência por explicar!



Em 2005 Portalegre perdeu uma empresa emblemática, símbolo da cidade, e ganhou uma Fundação. Supostamente seria uma forma de preservar o património industrial da Sociedade Corticeira Robinson, dignificar a cidade, aproveitar o espaço para valências culturais e artísticas. No entanto, a Fundação "acabou" insolvente, após substituições infindáveis de administrações e muitos comentários a circular pelas mesas dos cafés e redes sociais.

O que realmente espanta é o percurso da Fundação até à insolvência e a ausência de responsáveis, ou pelo menos de uma auditoria às decisões da Fundação, até para potencial salvaguarda de quem por lá passou. Temos uma fundação insolvente, na qual participaram diversos corpos sociais que saíram em desacordo com as políticas culturais, financeiras e culturais mas ninguém acha estranho que esta acabe insolvente? Ninguém se insurge que o legado da Robinson seja uma insolvência sem responsáveis?

A imagem pode conter: céu, nuvem e ar livre
Fundação Robinson - Portalegre

Bem sei que a cidade já não cheira a cortiça cozida e que camionetas carregadas de cortiça já não entram na cidade mas….o património edificado, cultural e as memórias não acabam de um dia para o outro!
Os portalegrenses necessitam de saber se foi tudo feito na defesa do interesse público ou se há algo a investigar. Não se perdem milhões numa sociedade, muito menos numa fundação sem se perceber porquê!

Uma fundação como a Robinson nunca deveria ter sido palco de disputas nem interesses
políticos nem se deveria ter desviado do foco da sua actuação na conservação do espólio
industrial da Sociedade Corticeira Robinson. Não deveria a Fundação ter-se confundido muitas vezes com a própria autarquia, sendo inclusive uma ferramenta de negociação política.

Passados 14 anos da Fundação Robinson, sim….já são 14 anos, atrevo-me a dizer que  deu muito pouco à cidade face aos grandes planos que os criadores Município de Portalegre e Sociedade Corticeira Robinson, tinham para o espaço, para o espólio e para o potencial de dinamização turística para Portalegre que a Fundação significaria.

Que o espaço acabe sob a gestão de uma qualquer empresa que o reconverta em unidade
hoteleira, até  parece ser um mal menor face ao ponto a que chegámos. A escolha parece ser entre a ruína e a requalificação para fins diferentes da sua criação. Será legal? Não há alternativa melhor? 

Numa cidade pequena, patrimónios como a Robinson têm de ser geridos com um misto de
paixão e ambição. Se a ambição parecia existir no início, ela foi perdendo fôlego ao longo dos anos. Já em relação à paixão pela cortiça, pela cidade, pela história e pela cultura, duvido que tenha existido em grande parte destes 14 anos, pelo menos em conjunto de todos estes factores!

Eu sinto uma profunda tristeza por ver a Robinson neste enredo! Mas mais tristeza tenho por a minha cidade ter permitido e considerar tolerável que uma coisa destas possa ter acontecido!

segunda-feira, 17 de junho de 2019

O Pisão que nos enfraquece(rá)



De tempos em tempos, geralmente em períodos pré-eleitorais, surge um grupo de distintos portalegrenses mais ou menos organizados com filiação partidária e cargos políticos que traz para a agenda mediática o assunto da barragem do Pisão. Será o Pisão a salvação do nosso Alto Alentejo?

O projecto da barragem está orçamentado em cerca de 100 milhões de euros, entre despesas de construção, custos de realojamento e rede de distribuição de água. Como o governo tem de garantir (alguma) equidade entre os investimentos públicos no território nacional, este valor será obviamente inibidor de novos investimentos públicos no Distrito de Portalegre. Para investir 100 milhões no Pisão, alguém acredita que um governo, seja ele qual for, investirá também na saúde, na educação, nas estradas, nos serviços públicos nos Municípios do Distrito?


A questão mais relevante por responder é se os distintos portalegrenses que voltaram a insistir na construção do Pisão estão seguros que este investimento será o motor por excelência de desenvolvimento do Distrito, colocando-o à frente de um novo hospital e melhores serviços de saúde para Portalegre, da ligação de auto-estrada e ferrovia decente a Portalegre, da circular de ligação da A6 ao IP2 sem ter de passar por Estremoz, da abertura permanente da fronteira entre Montalvão e Cedillo, e de tantos outros investimentos que seriam mais facilmente realizáveis pelo seu mais baixo custo comparando com os 100 milhões do Pisão.

Não nos podemos esquecer que Portalegre continua a ser a única capital de distrito de Portugal Continental sem auto-estrada, que a ligação ferroviária é quase inexistente, que Évora se prepara para construir o “Hospital Central do Alentejo” (investimento de €170.000.000), o que levará ao definhamento ainda mais acentuado das unidades de saúde do Distrito de Portalegre. Para além disso, o Distrito de Portalegre tem outras valências de recursos hídricos, alguns pouco aproveitados (lembro-me por exemplo do Açude do Carvalhal no concelho de Marvão, obra onde terão sido investidos cerca de €1.000.000 e que está ao abandono). Trará o Pisão os turistas e as actividades agrícolas que as barragens da Póvoa, da Apartadura, do Abrilongo ou do Caia não trouxeram?

Não está em causa o interesse estratégico do projecto “Barragem do Pisão” mas é preciso que todos tenhamos consciência da natureza do investimento, do custo de oportunidade relativo aos investimentos que deixarão de ser feitos e dos hipotéticos benefícios (e respectiva quantificação) que esse activo poderá ter (ou não ter) para todo o Distrito.



quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

Democracia ou Impostocracia?

As democracias modernas têm vindo a alimentar-se insaciavelmente do crescimento de impostos e taxas sobre os contribuintes. Há impostos extra para responder a crises imobiliárias, apoios “excepcionais” aos bancos, subsídios sociais infindáveis e principalmente para manter a pesada e ineficiente máquina do Estado. Em contrapartida, não existem nestas democracias movimentos sérios de emagrecimento do Estado nem de tentativa de redução dos impostos a que os cidadãos contribuintes estão obrigados.


O mesmo Estado que obriga os cidadãos a contribuírem, é o Estado que não sabe quantos organismos e funcionários públicos existem, que permite que políticos acusados por corrupção se possam candidatar a novos cargos públicos, que não coloca restrições de mandatos e que fecha os olhos a quem confunde a esfera privada com o exercício de funções públicas.

Este Estado não é sério nem é competente. Existe um Orçamento do Estado mas não há uma gestão do Estado, isto para não falar em economia do Estado porque essa é uma miragem. Não se medem custos de oportunidade, não existem análise custo-beneficio e sobretudo ninguém é avaliado pelas políticas públicas que implementa.


Gere-se no curto prazo, em função das próximas eleições, nomeiam-se os amigos e silenciam-se os opositores. O Estado (os políticos que o manipulam) investe onde a contestação é maior e onde o risco de perca eleitoral é superior. Continua a esquecer o interior mas insiste nas balelas do desenvolvimento regional, da descentralização e até da regionalização. E surpreendentemente há quem vá na cantiga, uns por falta de alternativas, outros por gozarem do status quo e outros sabe-se lá porque motivos.


O Estado deixou de ser uma entidade nobre que garante os interesses dos cidadãos. Passou a ser uma carraça que suga quem produz e asfixia rendimentos, patrimónios e o dia-a-dia dos contribuintes. Pelo contrário, protege os incompetentes, valoriza quem não produz e quem opta por não trabalhar. E tenho dúvidas se quem realmente precisa, acaba por ser ajudado pelo Estado a que chegámos.
Temos um Estado omnipresente para cobrar, reclamar, penhorar, taxar e exigir mas ausente para proteger, zelar, desenvolver, valorizar e dinamizar. Não há dinheiro para a saúde, para a educação nem para a defesa mas criam-se observatórios, institutos, associações, fundações e comissões a rodo.

Como permite o Estado que permaneça em funções um deputado que falsificou presenças e que ludibriou votos ao mesmo tempo que penhora empresas que se atrasam no pagamento das contribuições ou da entrega do IVA? Como permite o Estado ser capturado por lobies, leis e interesses privados? Não existem mecanismos de check-and-balances? Para que serve a oposição? Porque se mantêm tantos assessores, consultores, especialistas e avenças pagas a preços astronómicos? Ou será este o novo expoente do espião duplo (embora não seja acusado de traição), aquele que é pago pelo Estado mas que defende os interesses privados?

Isto não vai correr bem! Não vai correr nada bem!

Não o digo como os profetas da desgraça que passam a vida a dizer que algo vai acabar em tragédia e que sobrevivem mediaticamente por serem forçadamente do contra. A realidade é que o Estado não pode manter o trade off exigência vs irresponsabilidade por muitos mais anos. Os cidadãos não aguentam, o Estado não sobrevive! Por muito que os cidadãos fujam do exercício de cargos políticos e que a abstenção continue a aumentar, o que dá imenso jeito aos carreiristas políticos, os cidadãos não aguentam! E, quando finalmente os cidadãos não aguentarem, acontecerão clivagens sociais, económicas ou políticas. Não sei se os coletes serão amarelos, laranjas ou vermelhos mas não tenho dúvidas que nessa hora vai haver lamentos por não se ter feito mais cedo aquilo que é inevitável aos olhos de todos: a reforma do Estado e da Administração Pública.


A democracia pode ser um bom regime político mas precisa de ser realmente democrata, justa e equilibrada. Por isso tenho sérias dúvidas que possamos chamar o actual regime de extorsão crescente de impostos de democracia.


Transformar democracia em impostocracia não é sustentável!

segunda-feira, 5 de março de 2018

Chega de publicidade violenta a telenovelas em horário nobre!

Cópia da reclamação que acabei de fazer na Entidade Reguladora da Comunicação Social contra a publicidade a telenovelas cheia de violência que passa a qualquer hora nas televisões generalistas:
"Todos os dias, em todos os horários, somos confrontados com publicidade a telenovelas. Essa publicidade, repleta de cenas com armas, feridos, mortes, agressões, gritos e todo o tipo de violência) encontra adultos mas também crianças e pessoas sensíveis. Essa publicidade é, a meu ver,deplorável pelo horário, pelo conteúdo e pela ausência de preaviso que pudesse levar os pais a afastar as crianças da televisão ou a mudarem de canal. Que as novelas estejam repletas de violência, esse problema é com quem as autoriza e vê. Mas trazer essa violência para o horário nobre onde crianças são espectadoras, isso já me parece um grave problema em que a ERC deveria intervir e impedir.
Antecipadamente grato pela vossa intervenção!
Nuno Vaz da Silva"

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Verdades absolutas na política – um problema democrático


Temos vindo a assistir a um perigoso extremar de posições na política, num decalque daquilo que acontece no futebol:

“O meu clube/partido é bom e o teu é mau, o meu presidente pode dizer tudo que continua a ser um santo mas se o teu abrir a boca é um malvado!”

Esta postura revela uma falta de sentido democrático dos cidadãos e de quem os instiga a adoptarem esse tipo de comportamentos. As perseguições aos sistemas de checks and balances podem ser normais em regimes autoritários que não convivem bem com opiniões contraditórias e com a troca de argumentos mas devem ser combatidas em regimes que se dizem democráticos e em instituições que se querem plurais.

Se alguém critica as declarações de um líder politico da esquerda, logo é acusado de fascizoide ou de pafiano. Se alguém tem similar comportamento com declarações provenientes da direita, ou é comuna ou tachista da esquerda.

Mas pior do que esta critica gratuita e vazia de conteúdo, é o esvaziamento do contraditório dentro dos próprios partidos. Não bastava que os críticos fossem afastados pelas lideranças políticas da distribuição de lugares, agora até são silenciados pelo pelotão de fuzilamento de carácter das jotas, sempre ávidas por sangue na defesa cega do líder que defendem, independentemente das baboseiras que por ele sejam defendidas.

Ora, para alterar esta onda de definhamento democrático, seria necessário que os líderes dessem o exemplo mas isso não chega. Teria de haver um conjunto de personalidades dentro dos partidos que estivessem sensíveis a este tema e que aceitassem o risco de perder os seus próprios benefícios em contrapartida de deixarem uma marca para o futuro. É que falar em plurarismo, democracia e salutar troca de argumentos é sempre espectacular e traz muitos votos mas aplicar isso no quotidiano é mais raro, difícil e ameaça o status quo de tão “nobres políticos”.

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Bifanas, Minis e Farturas! Chegou a campanha/circo do colesterol


As eleições autárquicas são o último reduto dos festivais circenses. Temos domadores de leões, encantadores de cobras, trapezistas, equilibristas e até ilusionistas. Todas as artes circenses estão representadas por esse país fora e animam as hostes públicas que não pagam bilhete mas suportam campanhas e (no caso dos vencedores) salários para os vencedores e seus correlegionários.

Vai ser assim até Outubro. Vamos ter um país ocupado na troca de acusações pessoais, na construção de intrigas sobre as candidaturas alheias e na tentativa de sedução de cidadãos para integrarem as mais variadas listas. Também vamos ter música roufenha a ecoar por essas ruas fora em megafones e muita gordura ingerida em todas as romarias repletas de candidatos interessados em mostrar-se ou simplesmente dar-se a conhecer.

A verdadeira campanha eleitoral não é a que ocorre nas grandes metrópoles mas sim nos pequenos municípios e freguesias nas quais não se discutem argumentos nem políticas mas sim candidatos e a quantidade de beijos distribuídos. Nessas pequenas autarquias, a campanha eleitoral é uma espécie de surto infecioso transitório que transforma cidadãos discretos em candidatos extrovertidos, políticos distantes em amigos do peito e pessoas desconhecidas em eternos bairristas.
É neste circo que estamos a entrar e que culmina na data das eleições. Imediatamente após essa data os cidadãos discretos, voltarão a ser discretos, os inimigos políticos ficarão mais afastados ainda e dos desconhecidos perdedores ninguém se recordará mais. Obviamente que as romarias perderão receitas de bilheteira e diminuirá o número de bifanas vendidas. Já os valores do colesterol dificilmente retomarão aos níveis pré-eleitorais.

Enfim, no meio deste circo, talvez ainda haja espaço para alguma troca de argumentos, discussão de políticas e projectos de desenvolvimento sustentável. É que o circo pode ser útil para animar o pessoal e ajudar a vender jornais mas aquilo que dinamiza verdadeiramente as localidades é a frutuosa troca de ideias e de metodologias para as colocar em prática em prol do bem estar social.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Marcelo – a graça e a desgraça!


Marcelo Rebelo de Sousa conseguiu arrastar por 12 meses o estado de graça pós eleitoral. Apareceu em todo o lado, beijou meio mundo e falou, falou, falou! Na entrevista de ontem, assumiu-se como porta voz dos poderes políticos, uma espécie de presidente-sol que não é, com poderes que manifestamente não tem.

Para António Costa, este é, até ao momento, o melhor presidente que poderia ambicionar. Quando a oposição marca posição, Marcelo vem a público fazer de escudo protector, quando os governantes cometem erros e gaffes, Marcelo responde à comunicação social e conforta o Governo, quando os números aparecem, Marcelo apressa-se a gabá-los e a justificar o que não está bem!

A presidência de Marcelo está a ser aquilo que se previa! O melhor amigo de António Costa, o pior Presidente da República para o partido que o ajudou a eleger.

A entrevista de ontem mostrou um Marcelo que nunca deixou de ser comentador mas com vontade de tocar todos os instrumentos da orquestra e ainda fazer de maestro de si próprio. Em Portugal o Presidente não governa mas Marcelo arrisca ficar aprisionado pelo cálculo político de António Costa que deixa o Presidente pensar que tem poderes que não tem, mostrar-se quando não deve e, mais tarde (e nessa parte Marcelo ainda não percebeu), sofrer as consequências do que não correr bem!

Marcelo quis ser ele próprio e fez bem! Mas não pode ser o comentador de tudo e presidente do nada nem o porta voz das políticas do Governo! Poder até pode, mas isso vai-lhe sair muito caro, enquanto o Governo agradece aos céus a convivência com alguém que dá uma face para qualquer graça sem perceber que irá ter de dar a outra para a desgraça!

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

A minha democracia é melhor do que a tua


A vitória de Trump nas recentes eleições americanas, veio retomar a discussão sobre os regimes políticos, sobre a mensagem política e sobre as estratégias de sedução social utilizadas pelos partidos e seus líderes. Faz sentido haver colégio eleitoral ou todos os votos deviam ter o mesmo valor optando por uma eleição totalmente directa? Os eleitores votam em função da mensagem que os candidatos transmitem ou votam por emoções? Qual o valor de informações colaterais (positivas ou negativas) podem ter na escolha do eleito?

Estas perguntas não são usuais após todas as eleições. Elas apenas surgem porque as elites parecem ter sido surpreendidas pelo resultado eleitoral. E esse é um dos problemas da democracia. Se a democracia corresponde às nossas ambições, é um regime político espectacular. Se, pelo contrário, o voto da maioria é diferente do nosso, então, vamos apressar-nos a equacionar o regime político e a reestruturar o sistema político.

A democracia clássica era o governo do povo, onde a maioria escolhia os líderes. Mas a democracia contemporânea, à luz das elites devia ser uma espécie de oligarquia, ou então uma democracia das boas ideias, sendo estas uma escolha dos mais letrados, dos mais viajados ou dos mais mediáticos.


É interessante divagar sobre estes temas porque não sabemos o que vai ser da democracia daqui a 50 anos. Com a evolução tecnológica e a revolução das redes sociais, o mundo está a evoluir mais depressa do que evoluem os conceitos clássicos. Se não pensarmos sobre estes temas, arriscamos-nos a ser vencidos por uma determinada corrente de opinião dos pseudoletrados. 

A vitória de Trump pode ter múltiplas interpretações mas aquilo que sobressai é a forma como um discurso errático, anti-sistema e protecionista conseguiu seduzir milhões de eleitores seja como voto de protesto ou voto de paixão. Como todas as escolhas, a opção eleitoral decorre do passado, do contexto do presente e das expectativas para o futuro. Se Trump deu mais garantias dessas vertentes do que Hilary, é preferível que as elites reflictam sobre os motivos do que especulem sobre as consequências! Criticar Trump é atacar os milhões de eleitores mas não mergulhar nas causas é potenciar novos Trumps e, principalmente, não dinamizar alternativas sólidas e credíveis às Hillarys espalhadas pelo mundo. E, convenhamos, Trump só ganhou porque a alternativa “não era grande espingarda”!

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Os próximos 10 anos do Alto Alentejo


Quando se atinge uma marca como esta, 10 anos de existência, tendemos a ser revivalistas, olhar para o passado e lembrarmo-nos onde estávamos, o que fizemos, como evoluiu a sociedade, os amigos que perdemos e aqueles que conhecemos. Mas 10 anos são apenas uma etapa de um percurso que se deseja longo e bem sucedido.

Como muitos aproveitarão esta edição especial para falar do passado, eu escolho olhar para o futuro.
Nos próximos 10 anos o Alto Alentejo (refiro-me à região), terá vários desafios:
1- desenvolvimento económico;
2- atracção de população residente;
3- comunicação;

No primeiro ponto, refiro-me ao desenvolvimento económico assente na atração de investimento externo e ao investimento dos alentejanos na sua região. A economia vive não só dos grandes projectos mas também dos pequenos negócios de todos os sectores, que empregam pessoas, oferecem serviços e respondem a necessidades das populações.

No segundo item, considero que uma região que não atrai pessoas está condenada ao definhamento. As pessoas mudam de residência por causa dos empregos, da família e das condições que essa nova terra tem para oferecer (escolas, saúde, actividades sociais, segurança, projecto de vida). Se os municipios não apostarem nos factores que atraem residentes, o Alentejo continuará a perder população e a comprometer a sustentabilidade do seu futuro.

Em terceiro lugar, a comunicação é absolutamente fundamental para o sucesso da região. Não conheço região onde se coma melhor, que tenha melhor vinho e melhor água, onde o ar puro seja tão puro e onde se receba melhor quem vem de fora. Mas se não houver um plano de comunicação intermunicipal devidamente coordenado e integrado, vamos continuar a ter cada concelho a puxar a braza à sua sardinha e estaremos a perder sinergias que poderiam atrair mais visitantes, mais residentes e mais investimentos.

Com a actual situação do país em termos economico-financeiros, não se prevêem grandes obras públicas, não se perspectivam apostas no desenvolvimento regional e não haverá muita preocupação em dedicar atenção a uma região que elege poucos deputados. Assim, nos próximos 10 anos, terão de ser os alentejanos a puxar pelo Alentejo! E isso sabemos nós fazer muito bem!
Parabéns ao Jornal Alto Alentejo e daqui a 10 anos cá estaremos, assim o espero, para ver o que aconteceu!


Artigo publicado na edição especial comemorativa do 10º aniversário do Jornal Alto Alentejo, em 02/11/2016

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Tempo a mais no avião: o Orçamento de Estado ( OE 2017 )

Tempo a mais no avião: o Orçamento de Estado ( OE 2017 )

A ler o semanário Expresso no avião até Zurique fez-me pensar que, tal como eu, a maioria não sabe distinguir a direita da esquerda. Ideologias à parte, para os que não sabem não sei efectivamente distinguir a direita da esquerda...

O nosso ministro das Finanças, Mário Centeno, afirmou que este era um Orçamento de esquerda. Parece-me que o avaliou ao contrário. 
Com a informação que tenho disponível, este é um Orçamento de direita e, creio profundamente, que a própria direita não teria coragem de fazer. 

E sabendo que o OE para 2016 falhou, porque perdi tempo a analisar o orçamento para 2017? 

Porquê? 
Porque a estratégia é a mesma: reduzir ligeiramente os impostos directos ao mesmo tempo que se aumentam os indirectos. O rendimento disponível será maior, mas serve para menos. Podemos chamar-lhe o que quisermos, mas não passa de ilusão.

No final de contas, o Governo não só assume o enorme aumento de impostos de Vítor Gaspar, que não reverteu, como cria outros, como o 'fat tax' e novos impostos sobre o imobiliário. 

A necessidade urgente e constante de receita ( não reduzindo a despesa, como sempre ) vai levar o Estado a punir os que poupam e os que, em liberdade, decidem o que comer e beber, se fazem ou não desporto e que cuidados têm com a sua saúde.

Sem surpresa, o OE 2017 caracteriza-se por aumento da carga fiscal e maior presença do Estado na economia, justificados algures entre a ideologia e a necessidade de arrecadar mais impostos. 

1.
A primeira constatação é que os compromissos que o Governo assumiu com os seus parceiros à Esquerda, em grandes temáticas como a reversão dos cortes salariais, obrigaram a um aumento da tributação indirecta, parece que dói menos mas está lá, e à criação de um novo imposto sobre o património que dói logo à partida. 

2.
A segunda constatação e minha preocupação é que Portugal só conseguirá voltar a crescer de forma real e sustentada se apostar verdadeiramente nas exportações e se conseguir estruturalmente captar investimento.

3.
A terceira constatação é a estratégia do Governo para limpar numa solução de mercado que permita a venda de carteiras de crédito malparado dos bancos a investidores internacionais, sem um desconto excessivamente elevado, e sem colocar as empresas portuguesas devedoras nas mãos de fundos gananciosos - que medo!; por outro lado, o OE2017 prevê a criação de instrumentos para facilitar a recapitalização das empresas.

Vejamos algumas medidas tipicamente de esquerda, no caso do fim do imposto de selo para casas acima de um milhão de euros. Na prática quem tiver uma casa com um valor superior aquele montante acaba por sair muito beneficiado, pois desce de 1% para 0,3%, ou seja, num cenário de 10 mil euros, passa para 3 mil euros. Uma prenda bem bonita a quem faz falta o dinheiro... e o Natal está à porta. 

Outra pergunta quase de Trivia, e que vale outro milhão de euros, é perceber como é que o Bloco e o PCP fazem um Orçamento em que os beneficiários são os agregados de maiores rendimentos. Agora já a caminho de um queijinho vermelho, e sobre a sobretaxa? É fácil concluir que o seu fim beneficia os cidadãos de maiores rendimentos. Basta pensar naquele pobre gestor que tem um rendimento bruto anual de meio milhão de euros (e não são assim tão poucos) que tinha uma sobretaxa de 3,5% e já sabe que em novembro do próximo ano ficará liberto dessa obrigação. E adiantamos que ainda bem porque fica com mais uns trocos que, concerteza, lhe fazem falta... e o Natal está à porta. 

E para finalizar, que é feito da reforma do IRC? O orçamento ignora este e outros temas.

Costa mantém uma meta ambiciosa para o défice do próximo ano: 1,6% do PIB. O objetivo é agradar a Bruxelas mesmo que ninguém acredite no feito. Cá estaremos para ver! 

domingo, 18 de setembro de 2016

Pouco conteúdo e muita forma! Muito sensionalismo, interesse nulo!

O que fica da política dos últimos tempos é a "narrativa" (José Socrates) o "desvio colossal" (Vitor Gaspar), a "geringonça" (Paulo Portas), os "pafiosos" (claque do PS, PCP e BE), os "caçadores de diabos e pokemons "(António Costa), a "lavandaria do Governo" (João Almeida)…
Nisto a que chamam de política escasseiam as propostas e o debate construtivo e excedem-se os pregões, muito úteis para rodapés de noticiários mas completamente dispensáveis para a vida dos portugueses. O nível actual da política compete com a linguagem de reality shows televisivos. Pouco conteúdo e muita forma! Muito sensionalismo, interesse nulo!
Mas, se realmente tem assim tão pouco interesse, porque motivo continuam os políticos nesta cruzada de definhamento da classe? Porque não elevam o nível do debate para o campo das propostas, dos projectos, dos argumentos?


Alguns não o farão por manifesta incapacidade mas outros estarão apenas reféns da cultura política. Após anos e anos de debates vazios, acusações múltiplas e desconstruções de argumentos através da critica infundada ou através de falsidades grosseiras mas mediaticamente apelativas, é natural que os políticos prefiram o sucesso imediato ( entenda-se aparecer no primeiro noticiário do dia) do que o eventual sucesso futuro de que dependem tantos factores como as amizades dentro do partido, o apoio dos seus pares, o voto do povo e tantos outros.

Resumindo, a política da filosofia deu lugar à política de brejeirice e do insulto. E como tenho a ideia que no fim do dia são todos amigos e vão à bola juntos (pagos por um qualquer grupo de interesse), parece-me haver uma notável falta de carácter na política. E ainda se pergunta porque não atrai a política mais e melhores pessoas…como se alguém não soubesse os motivos e como se os "carreiristas políticos" tivessem interesse em ter mais e melhores pessoas na política!

quinta-feira, 17 de março de 2016

O estrangeirismo


Língua de Camões foi Português
Pessoa, Régio e Saramago
Agora tudo fala em inglês
Que país tão pouco amado!

Fala-se inglês ou alemão
Espanhol, francês ou brasileiro
Falam os governantes com emoção
Quando vão para o estrangeiro!

Raios parta o estrangeirismo
Onde está o orgulho nacional?
Parecemos perto do abismo
Neste mundo irracional!

O Português deixou de ser chique
No Porto, em Lisboa e em Cascais
Falar inglês é um tique
De um bando de anormais! 



quarta-feira, 9 de março de 2016

Cavaco, justiça ao seu nome


Cavaco Silva consegue no fim da sua carreira política um amplo e raro consenso de opiniões bastante críticas face à sua actuação como Presidente da República. Mas, se Cavaco é um alvo fácil a abater por parte de diversas áreas políticas, importa fazer justiça à figura de Cavaco Silva, o homem que nos últimos 30 anos mudou a política portuguesa e liderou o país em diversas frentes.
A verdade é que Cavaco me levou a gostar de economia e de política. Para quem, como eu, nascido na década de oitenta, começou a olhar para o país nos governos PSD de maioria absoluta, Cavaco foi um político diferente dos restantes. Soube aproveitar os financiamentos europeus, fez frente a um Presidente da República hostil, conseguia surpreender nas remodelações governamentais, tinha a sua própria agenda (o que irritou muitos jornalistas) e fez escolhas, muitas escolhas que alteraram o rumo do país. Cavaco decidia, falava quando bem entendia, fazia silêncio quando escolhia e apaixonava o eleitorado do centro-direita. Empolgava nas campanhas eleitorais e marcava a diferença para um Portugal que se queria a evoluir para lá dos fantasmas da ditadura mas também para além das brumas do tão aclamado “25 de Abril sempre!”

Visita do Primeiro Ministro Cavaco Silva a Marvão. (descubra o autor deste artigo na foto)

Cavaco não foi apenas um economista que um dia virou político. Cavaco Silva conseguiu evoluir de economista conservador para político convicto das suas decisões. A solidez do seu discurso convencia os parceiros europeus e os seus conhecimentos técnicos arrumaram no esquecimento muitos candidatos a políticos da oposição.
Ninguém sabe como seria hoje o país se não tivesse havido Cavaco. Ninguém pode afirmar que outro político teria feito mais e melhor. Nos anos 80 Portugal estava ainda mais periférico do que hoje e o país que eu conheço evoluiu com o político que o governou. Cavaco deixou um legado que não deixa ninguém indiferente. Para uns foi o causador do excessivo número de funcionários públicos e do crescente endividamento, para outros levou ao desenvolvimento do país e dos seus habitantes.
O Cavaco que eu me vou recordar não será o Presidente da República esvaziado de competências e repleto de contenções. A defesa do superior interesse nacional tão apregoada discurso atrás de discurso poderia,…..deveria ter tido mais presença, mais acção, maior intervenção.
Cavaco Silva mostrou que um mesmo homem pode ser bom político em funções executivas e mediano como bibelot. Claro que a idade, o cansaço ou mesmo a doença podem ter a sua quota-parte de responsabilidade mas tudo tem o seu tempo.
Sou daqueles que não tendo votado em Cavaco no seu último mandato, o elogiam como político, como primeiro-ministro e como o responsável por uma corrente ideológica-politica que marcou o pais: o Cavaquismo.
Cavaco Silva teve uma carreira política longa. Fez amigos e principalmente muitos inimigos. Fez coisas que o orgulham, outras que seguramente teria feito diferente. Cavaco Silva termina hoje um ciclo político e deixa muitos adversários em todos os quadrantes. Mas desconfio que isso pouco importará a Cavaco. Se o seu objectivo enquanto primeiro-ministro foi deixar obra, como Presidente da República procurou ser a sua antítese e consolidar a estabilidade das instituições.
Cavaco Silva ficará na história do país e deixa um profundo legado político. Ficará também na memória de muitos portugueses que acompanharam a sua trajectória, as suas posições e as suas decisões. Ficará também na minha memória como personalidade que influenciou indirectamente e sem nunca o saber, algumas das minhas escolhas. Quero acreditar que não serei o único português a valorizar o seu legado político e económico.
Neste dia que termina as suas funções, faça-se justiça ao homem, ao economista, ao político!
Em suma, faça-se justiça ao seu nome!

sábado, 5 de março de 2016

O sangue que faz rolar as empresas


Poderia o gestor menos experiente pensar que os principais problemas das empresas resultam do excesso de burocracia ou mesmo da teia legislativa que as envolvem, dos recursos humanos ou da gestão de stocks. No entanto, um gestor mais experiente opinará que as maiores dificuldades resultam da gestão da tesouraria. A décalage entre as vendas e os recebimentos ou mesmo entre os recebimentos dos clientes e os pagamentos aos fornecedores são das maiores preocupações das empresas e dos empresários.
Uma empresa pode ter muitas vendas mas se tiver atrasos nas cobranças, isso é um grave problema e uma ameaça para o seu futuro próximo. O mesmo acontece se a data de pagamento aos fornecedores estiver negociada para prazos muito curtos que potenciem a existência de defaults pelos atrasos nas cobranças aos seus clientes.
Na prática, a actividade corrente é o sangue da empresa. Se o sangue não flui, se há gorduras acumuladas que impedem a tesouraria de funcionar, é a própria empresa que está em risco.
É fundamental que os gestores empresariais antecipem os problemas e disponham de instrumentos de apoio especializado à tesouraria, como são o exemplo do factoring e do confirming. A possibilidade de adaptação destes produtos à especificidade das empresas torna-os extraordinários aliados para o sucesso da actividade empresarial, evitando problemas futuros que poderiam ameaçar a sustentabilidade de negócios que podem ser rentáveis mas não evoluem por erros de estratégia financeira.
A típica conta corrente caucionada, o desconto de livranças ou mesmo a alavancagem por via de operações de médio prazo podem ter a sua utilidade mas são ferramentas pouco dinâmicas e, na maioria das situações, mais dispendiosas do que o factoring ou o confirming.
O crescente recurso a instrumentos especializados de pagamentos e cobranças poderá ainda ter uma função didáctica, incentivando um maior respeito pelo cumprimento de prazos e pela assunção de responsabilidades de crédito. Claro que o recurso a créditos, sejam eles quais forem, deve ser efectuado de forma cautelosa, com conta, peso e medida.
O factoring e o confirming são os melhores amigos do gestor empresarial. Mas a mais valia destes produtos financeiros especializados é a sua efectiva componente de parceria estratégica entre entidades empresariais e instituições financeiras, com melhoria de risco e eficiência na gestão diária de tesouraria.


quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Por um campeonato de comentadores políticos

Estamos perante um pico de comentários políticos motivado pela guerra acesa entre apoiantes do governo / apoiantes do ex-governo. A quantidade de artigos, muitos de qualidade duvidosa, e informação desfasada da realidade demonstra que a inflamação dos agentes políticos (não necessariamente partidários) está ao rubro com acusações, trocas de motivações, agitação de galhardetes e demonstração de pins na lapela que suscitem alguma nomeação no curto prazo.

Cada vez mais importa separar o trigo do joio, ou seja, separar os comentários isentos, construtivos e justos, dos apoiantes políticos disfarçados de comentadores credenciados e sabedores de todo e qualquer ofício.
Deveria haver até campeonatos distintos para os comentadores. Numa primeira divisão teríamos apenas meia dúzia de comentadores com os quais se aprende alguma coisa e que demonstram isenção da sua análise (o que não quer dizer que tenham de ser politicamente isentos). Numa segunda divisão estariam aqueles que pretendem ser isentos mas têm pouco conhecimento técnico, o que os leva a cometer ocasionalmente gaffes ou erros de palmatória.
Numa terceira divisão entrariam as claques partidárias. Toda a opinião partidária em forma de comentário seria aqui segmentada. Os adeptos da contra política não deveriam sequer ter espaço nos comentários políticos. Para estes artistas do disparate deveriam ser criados espaços de opinião partidária ou mesmo de novela política mas não de comentários políticos.

A existência de muitas classes de comentadores misturadas, leva a que o cidadão mais atento à causa pública (mas não o suficiente para separar comentadores e artistas de circo) seja frequentemente confundido com dados e estatísticas, métricas e percentagens, decisões e vontades que se vêm a revelar falaciosas mas que contribuem para o ruído que impossibilita a discussão dos argumentos e a saudável troca de posições construtivas.

O comentário político tem real importância por ser uma forma das "elites políticas" esgrimirem opiniões, posições e desejos, dando-os a conhecer à opinião pública interessada. Mas quando sofre mutações para fóruns de guerrilha partidária, mecanismos de desinformação, criação de ruído e insultos gratuitos, não serve para rigorosamente nada e deveria ser remetido ao seu devido lugar: ao LIXO!
Mas enquanto não existem campeonatos de comentadores, por vezes a opção mais eficiente é fechar a televisão, não comprar jornal, não ligar qualquer rede social e ignorar a rádio. A não informação pode ser melhor que a má informação!


PS: o presente autor não pretende entrar em qualquer desses campeonatos, remetendo-se ao amadorismo do comentário político, ou seja, aos campeonatos distritais!


quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

A roleta tuga de Rebelo de Sousa

O candidato Marcelo Rebelo de Sousa iniciou a sua caminhada eleitoral com a seguinte filosofia:

Sou líder incontestado nas sondagens, os votos da esquerda estão fragmentados, todos os portugueses conhecem o meu percurso, as minhas críticas da esquerda à direita e o meu nome no boletim consegue responder (melhor do que qualquer pessoa) a toda e qualquer campanha que façam contra mim.

Esta filosofia política representa um risco significativo para o candidato que provavelmente o próprio não está a considerar.

Vejamos, Marcelo está a fazer campanha eleitoral sem comícios, sem bandeiras, brindes ou música pelas ruas. Marcelo considera que ele é a sua melhor ferramenta da campanha. Não necessita de jotas, de boys nem de barões. Marcelo prescindiu do pimba e faz uma campanha para as pessoas que encontra, com (poucos) militantes (pouco) descaracterizados e sem a onda humana característica dos vencedores incontestados.

Sendo um homem da comunicação, Marcelo deveria saber que as imagens vendem. Ter uma campanha sem outdoors, sem cor e sem barulho é carregar um candidato com pouco brilho e com excesso de confiança.
Marcelo não percebeu ou não lhe explicaram que o exercício presidencial nasce da vontade do candidato mas tem de ser previamente suportado por uma base de forte apoio social que se transforma numa corrente de votos.
O risco de estar em alta nas primeiras sondagens não é apenas o excesso de confiança. Quando se começa em alta tem-se mais probabilidades de ter decréscimos do que ter subidas nas sondagens. E ao contrário do que Marcelo pensa, muitos eleitores decidem em quem votar e decidem mesmo se votam no final da campanha.
Se todos os votos da direita estivessem assegurados, Marcelo seria o próximo Presidente da República sem grandes sobressaltos (facilmente iria buscar alguns votos ao centro e até à esquerda). O que Marcelo ainda não terá percebido é que muitos eleitores do PSD e do CDS não o apoiam, pelas sucessivas críticas que fez ao governo, aos autarcas e a membros destes partidos.
A eleição presidencial não é um dado adquirido e, sobretudo, não se pode esquecer que se trata de um acto político que é influenciado por inúmeras variáveis.

É provável que Marcelo Rebelo de Sousa seja o próximo Presidente da República. Mas antes disso ocorrer é natural também que a sua “não campanha” eleitoral se transforme numa verdadeira campanha política sem receio de apelar aos votos, de mostrar as diferenças, de criticar as propostas dos opositores e de agitar bandeiras em qualquer comício cheio de militantes pseudo-anónimos cheios de vontade de mostrar serviço aos líderes das suas distritais partidárias.

A estratégia de Marcelo Rebelo de Sousa é louvável mas na realidade politica nacional é uma espécie de roleta russa...ou tuga que tem mais riscos do que hipotéticas vantagens.

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

O futuro da direita portuguesa e os ácaros entranhados no armário

Depois de uma vitória amarga e de uma colossal derrota negocial, a direita portuguesa sofreu um profundo golpe político do qual dificilmente recuperará no curto prazo. E vou explicar porquê:
1-      A direita insiste no discurso da ilegitimidade política, esquecendo que o governo PS com PCP/ PEV/PAN e BE é fruto da legislação, da Constituição e da nomeação Presidencial. Apenas não é legítimo do ponto de vista tradicional e histórico. Mas, se Portugal não é governado em regime de tribo ou anciãos, utilizar o argumento da ilegitimidade é uma perda de tempo e uma afronta à democracia;
2-      A direita continua a achar-se vencedora. Isso originou a ausência de demissões, a manutenção do discurso e a escassez de reflexões para identificar os problemas, os erros ou a eventual mais (ou menos) valia da coligação PAF;
3-      Como se acha vencedora, a direita não admite opiniões contrárias nem divergentes, não aceita sugestões de mudança, não pretende mudar discursos, metodologias nem pessoas;
4-      Os boys da direita (são tantos e com igual qualidade dos boys da esquerda) acreditam que o actual governo vai cair no dia seguinte e continuam a pairar na esfera política, não dando espaço para novas pessoas ou mudanças de estilo;
5-      Marcelo Rebelo de Sousa, potencial próximo Presidente da República não é um liberal e a sua hipotética eleição nem poderá ser aclamada como uma vitória da direita, ou melhor, da direita tal como hoje a conhecemos;
6-      A sociedade portuguesa é tradicionalmente de esquerda – efeitos de uma revolução socialista ainda muito recente e aos receios do papão da ditadura do fascismo. Afrontar a esquerda sem ter propostas, argumentos, politicas ou pensamentos que tenham em consideração as pessoas e não apenas os números, apenas vai dar mais força à coligação de esquerda e à união desta contra o "governo dos números" (recente governo PSD/CDS)


Quando um partido se habitua a ter poder, torna-se numa espécie de adolescente que ganha vícios que são tanto maiores quanta a independência que tem de outras instituições e outras forças políticas para aprovar aquilo que pretende. O PSD e o CDS ganharam esses vícios e não os perderam abruptamente como teria acontecido no caso de uma monumental derrota eleitoral. Assim, arriscam entrar numa demorada fase de definhamento político e de gradual perda dos ácaros até ganharem novamente o ímpeto ganhador daqueles que querem fazer mais, que querem fazer melhor e que estão dispostos a mudar para evoluir. Quanto mais tempo persistirem no definhamento, mais espaço de manobra terá o "governo vermelho" e menos oposição teremos no parlamento.
Ou seja, os cidadãos terão o mesmo problema: uma democracia fraca, sem contraditório construtivo, sem uma alternativa estável e sem esperança no futuro!
Mudam os actores e o encenador mas a trama continua!


sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Para ser bom político, não chega ser bom técnico


O pequeno título deste texto tem-se aplicado a inúmeras escolhas políticas que, apesar de aclamadas pelas elites sociais, não passaram de erros de casting. Essas escolhas são comuns em todos os governos mas também na elaboração de listas de deputados, nomeações públicas e tantas outras opções onde foi preterido o feeling político em detrimento unicamente da capacidade técnica, da boa vontade pessoal ou da camaradagem com quem tem o poder de escolha.

Para o cidadão menos atento a estas questões, a inabilidade política seria um mal menor face a outros valores mais nobres da pessoa humana que aparentemente superariam a falta de jeito para a gestão de dossiers políticos. Mas a verdade é que isso não acontece. Alguns políticos menos dotados conseguem passar pela vida política de forma inócua, muitos fingindo-se de adormecidos, hibernados ou até de mortos. Mas outros não têm esses dons e são confrontados com erros de cálculo, incapacidade negocial, falta de liderança, desconhecimento dos mecanismos de gestão, dificuldade de adaptação, inabilidade para discursar e tantos outros constrangimentos que minam a política e fazem aumentar a venda dos tablóides. Obviamente que estes erros de casting são tanto mais graves quanto a responsabilidade que as personalidades assumem. Por vezes, a gravidade afecta apenas o próprio mas em outras ocasiões afecta executivos, partidos, governos ou até o país.
A escolha de personalidades para ocupação de cargos políticos decorre de estratégias políticas mas também pode ocorrer por meros acasos conjunturais. A urgência com que muitas nomeações são decididas não permite analisar os dotes políticos nem a inteligência emocional dos escolhidos. Muitas vezes, nem possibilita que os candidatos sejam “googlados” para perceber o que andaram a dizer e a fazer nas suas vidas.
E não se pense que será a Cresap a tratar este problema político pois nem a entrevista de seleção, nem o teste psicotécnico ou a análise de currículo permitem detectar e rejeitar candidatos desadequados politicamente (atenção que politico é diferente de filiado em partido político).

Este governo também tem esses problemas. Alguns bons técnicos serão pouco mais do que marionetas nas mãos de políticos experientes e jornalistas ávidos de escândalos, erros, incongruências. O grande problema é que a inabilidade política não é um problema de saúde tratável. É uma maleita crónica que pode eventualmente ser minimizada mas também pode arruinar uma caminhada ganhadora.
Aos bons técnicos com aspirações pelo poder, recomendo o estudo destas matérias para se precaverem mas aos decisores públicos desejo que tenham consciência que as escolhas que fazem afectam positiva ou negativamente o país que têm missão de gerir.