domingo, 18 de setembro de 2016

Pouco conteúdo e muita forma! Muito sensionalismo, interesse nulo!

O que fica da política dos últimos tempos é a "narrativa" (José Socrates) o "desvio colossal" (Vitor Gaspar), a "geringonça" (Paulo Portas), os "pafiosos" (claque do PS, PCP e BE), os "caçadores de diabos e pokemons "(António Costa), a "lavandaria do Governo" (João Almeida)…
Nisto a que chamam de política escasseiam as propostas e o debate construtivo e excedem-se os pregões, muito úteis para rodapés de noticiários mas completamente dispensáveis para a vida dos portugueses. O nível actual da política compete com a linguagem de reality shows televisivos. Pouco conteúdo e muita forma! Muito sensionalismo, interesse nulo!
Mas, se realmente tem assim tão pouco interesse, porque motivo continuam os políticos nesta cruzada de definhamento da classe? Porque não elevam o nível do debate para o campo das propostas, dos projectos, dos argumentos?


Alguns não o farão por manifesta incapacidade mas outros estarão apenas reféns da cultura política. Após anos e anos de debates vazios, acusações múltiplas e desconstruções de argumentos através da critica infundada ou através de falsidades grosseiras mas mediaticamente apelativas, é natural que os políticos prefiram o sucesso imediato ( entenda-se aparecer no primeiro noticiário do dia) do que o eventual sucesso futuro de que dependem tantos factores como as amizades dentro do partido, o apoio dos seus pares, o voto do povo e tantos outros.

Resumindo, a política da filosofia deu lugar à política de brejeirice e do insulto. E como tenho a ideia que no fim do dia são todos amigos e vão à bola juntos (pagos por um qualquer grupo de interesse), parece-me haver uma notável falta de carácter na política. E ainda se pergunta porque não atrai a política mais e melhores pessoas…como se alguém não soubesse os motivos e como se os "carreiristas políticos" tivessem interesse em ter mais e melhores pessoas na política!

quinta-feira, 17 de março de 2016

O estrangeirismo


Língua de Camões foi Português
Pessoa, Régio e Saramago
Agora tudo fala em inglês
Que país tão pouco amado!

Fala-se inglês ou alemão
Espanhol, francês ou brasileiro
Falam os governantes com emoção
Quando vão para o estrangeiro!

Raios parta o estrangeirismo
Onde está o orgulho nacional?
Parecemos perto do abismo
Neste mundo irracional!

O Português deixou de ser chique
No Porto, em Lisboa e em Cascais
Falar inglês é um tique
De um bando de anormais! 



quarta-feira, 9 de março de 2016

Cavaco, justiça ao seu nome


Cavaco Silva consegue no fim da sua carreira política um amplo e raro consenso de opiniões bastante críticas face à sua actuação como Presidente da República. Mas, se Cavaco é um alvo fácil a abater por parte de diversas áreas políticas, importa fazer justiça à figura de Cavaco Silva, o homem que nos últimos 30 anos mudou a política portuguesa e liderou o país em diversas frentes.
A verdade é que Cavaco me levou a gostar de economia e de política. Para quem, como eu, nascido na década de oitenta, começou a olhar para o país nos governos PSD de maioria absoluta, Cavaco foi um político diferente dos restantes. Soube aproveitar os financiamentos europeus, fez frente a um Presidente da República hostil, conseguia surpreender nas remodelações governamentais, tinha a sua própria agenda (o que irritou muitos jornalistas) e fez escolhas, muitas escolhas que alteraram o rumo do país. Cavaco decidia, falava quando bem entendia, fazia silêncio quando escolhia e apaixonava o eleitorado do centro-direita. Empolgava nas campanhas eleitorais e marcava a diferença para um Portugal que se queria a evoluir para lá dos fantasmas da ditadura mas também para além das brumas do tão aclamado “25 de Abril sempre!”

Visita do Primeiro Ministro Cavaco Silva a Marvão. (descubra o autor deste artigo na foto)

Cavaco não foi apenas um economista que um dia virou político. Cavaco Silva conseguiu evoluir de economista conservador para político convicto das suas decisões. A solidez do seu discurso convencia os parceiros europeus e os seus conhecimentos técnicos arrumaram no esquecimento muitos candidatos a políticos da oposição.
Ninguém sabe como seria hoje o país se não tivesse havido Cavaco. Ninguém pode afirmar que outro político teria feito mais e melhor. Nos anos 80 Portugal estava ainda mais periférico do que hoje e o país que eu conheço evoluiu com o político que o governou. Cavaco deixou um legado que não deixa ninguém indiferente. Para uns foi o causador do excessivo número de funcionários públicos e do crescente endividamento, para outros levou ao desenvolvimento do país e dos seus habitantes.
O Cavaco que eu me vou recordar não será o Presidente da República esvaziado de competências e repleto de contenções. A defesa do superior interesse nacional tão apregoada discurso atrás de discurso poderia,…..deveria ter tido mais presença, mais acção, maior intervenção.
Cavaco Silva mostrou que um mesmo homem pode ser bom político em funções executivas e mediano como bibelot. Claro que a idade, o cansaço ou mesmo a doença podem ter a sua quota-parte de responsabilidade mas tudo tem o seu tempo.
Sou daqueles que não tendo votado em Cavaco no seu último mandato, o elogiam como político, como primeiro-ministro e como o responsável por uma corrente ideológica-politica que marcou o pais: o Cavaquismo.
Cavaco Silva teve uma carreira política longa. Fez amigos e principalmente muitos inimigos. Fez coisas que o orgulham, outras que seguramente teria feito diferente. Cavaco Silva termina hoje um ciclo político e deixa muitos adversários em todos os quadrantes. Mas desconfio que isso pouco importará a Cavaco. Se o seu objectivo enquanto primeiro-ministro foi deixar obra, como Presidente da República procurou ser a sua antítese e consolidar a estabilidade das instituições.
Cavaco Silva ficará na história do país e deixa um profundo legado político. Ficará também na memória de muitos portugueses que acompanharam a sua trajectória, as suas posições e as suas decisões. Ficará também na minha memória como personalidade que influenciou indirectamente e sem nunca o saber, algumas das minhas escolhas. Quero acreditar que não serei o único português a valorizar o seu legado político e económico.
Neste dia que termina as suas funções, faça-se justiça ao homem, ao economista, ao político!
Em suma, faça-se justiça ao seu nome!

sábado, 5 de março de 2016

O sangue que faz rolar as empresas


Poderia o gestor menos experiente pensar que os principais problemas das empresas resultam do excesso de burocracia ou mesmo da teia legislativa que as envolvem, dos recursos humanos ou da gestão de stocks. No entanto, um gestor mais experiente opinará que as maiores dificuldades resultam da gestão da tesouraria. A décalage entre as vendas e os recebimentos ou mesmo entre os recebimentos dos clientes e os pagamentos aos fornecedores são das maiores preocupações das empresas e dos empresários.
Uma empresa pode ter muitas vendas mas se tiver atrasos nas cobranças, isso é um grave problema e uma ameaça para o seu futuro próximo. O mesmo acontece se a data de pagamento aos fornecedores estiver negociada para prazos muito curtos que potenciem a existência de defaults pelos atrasos nas cobranças aos seus clientes.
Na prática, a actividade corrente é o sangue da empresa. Se o sangue não flui, se há gorduras acumuladas que impedem a tesouraria de funcionar, é a própria empresa que está em risco.
É fundamental que os gestores empresariais antecipem os problemas e disponham de instrumentos de apoio especializado à tesouraria, como são o exemplo do factoring e do confirming. A possibilidade de adaptação destes produtos à especificidade das empresas torna-os extraordinários aliados para o sucesso da actividade empresarial, evitando problemas futuros que poderiam ameaçar a sustentabilidade de negócios que podem ser rentáveis mas não evoluem por erros de estratégia financeira.
A típica conta corrente caucionada, o desconto de livranças ou mesmo a alavancagem por via de operações de médio prazo podem ter a sua utilidade mas são ferramentas pouco dinâmicas e, na maioria das situações, mais dispendiosas do que o factoring ou o confirming.
O crescente recurso a instrumentos especializados de pagamentos e cobranças poderá ainda ter uma função didáctica, incentivando um maior respeito pelo cumprimento de prazos e pela assunção de responsabilidades de crédito. Claro que o recurso a créditos, sejam eles quais forem, deve ser efectuado de forma cautelosa, com conta, peso e medida.
O factoring e o confirming são os melhores amigos do gestor empresarial. Mas a mais valia destes produtos financeiros especializados é a sua efectiva componente de parceria estratégica entre entidades empresariais e instituições financeiras, com melhoria de risco e eficiência na gestão diária de tesouraria.


quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Por um campeonato de comentadores políticos

Estamos perante um pico de comentários políticos motivado pela guerra acesa entre apoiantes do governo / apoiantes do ex-governo. A quantidade de artigos, muitos de qualidade duvidosa, e informação desfasada da realidade demonstra que a inflamação dos agentes políticos (não necessariamente partidários) está ao rubro com acusações, trocas de motivações, agitação de galhardetes e demonstração de pins na lapela que suscitem alguma nomeação no curto prazo.

Cada vez mais importa separar o trigo do joio, ou seja, separar os comentários isentos, construtivos e justos, dos apoiantes políticos disfarçados de comentadores credenciados e sabedores de todo e qualquer ofício.
Deveria haver até campeonatos distintos para os comentadores. Numa primeira divisão teríamos apenas meia dúzia de comentadores com os quais se aprende alguma coisa e que demonstram isenção da sua análise (o que não quer dizer que tenham de ser politicamente isentos). Numa segunda divisão estariam aqueles que pretendem ser isentos mas têm pouco conhecimento técnico, o que os leva a cometer ocasionalmente gaffes ou erros de palmatória.
Numa terceira divisão entrariam as claques partidárias. Toda a opinião partidária em forma de comentário seria aqui segmentada. Os adeptos da contra política não deveriam sequer ter espaço nos comentários políticos. Para estes artistas do disparate deveriam ser criados espaços de opinião partidária ou mesmo de novela política mas não de comentários políticos.

A existência de muitas classes de comentadores misturadas, leva a que o cidadão mais atento à causa pública (mas não o suficiente para separar comentadores e artistas de circo) seja frequentemente confundido com dados e estatísticas, métricas e percentagens, decisões e vontades que se vêm a revelar falaciosas mas que contribuem para o ruído que impossibilita a discussão dos argumentos e a saudável troca de posições construtivas.

O comentário político tem real importância por ser uma forma das "elites políticas" esgrimirem opiniões, posições e desejos, dando-os a conhecer à opinião pública interessada. Mas quando sofre mutações para fóruns de guerrilha partidária, mecanismos de desinformação, criação de ruído e insultos gratuitos, não serve para rigorosamente nada e deveria ser remetido ao seu devido lugar: ao LIXO!
Mas enquanto não existem campeonatos de comentadores, por vezes a opção mais eficiente é fechar a televisão, não comprar jornal, não ligar qualquer rede social e ignorar a rádio. A não informação pode ser melhor que a má informação!


PS: o presente autor não pretende entrar em qualquer desses campeonatos, remetendo-se ao amadorismo do comentário político, ou seja, aos campeonatos distritais!


quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

A roleta tuga de Rebelo de Sousa

O candidato Marcelo Rebelo de Sousa iniciou a sua caminhada eleitoral com a seguinte filosofia:

Sou líder incontestado nas sondagens, os votos da esquerda estão fragmentados, todos os portugueses conhecem o meu percurso, as minhas críticas da esquerda à direita e o meu nome no boletim consegue responder (melhor do que qualquer pessoa) a toda e qualquer campanha que façam contra mim.

Esta filosofia política representa um risco significativo para o candidato que provavelmente o próprio não está a considerar.

Vejamos, Marcelo está a fazer campanha eleitoral sem comícios, sem bandeiras, brindes ou música pelas ruas. Marcelo considera que ele é a sua melhor ferramenta da campanha. Não necessita de jotas, de boys nem de barões. Marcelo prescindiu do pimba e faz uma campanha para as pessoas que encontra, com (poucos) militantes (pouco) descaracterizados e sem a onda humana característica dos vencedores incontestados.

Sendo um homem da comunicação, Marcelo deveria saber que as imagens vendem. Ter uma campanha sem outdoors, sem cor e sem barulho é carregar um candidato com pouco brilho e com excesso de confiança.
Marcelo não percebeu ou não lhe explicaram que o exercício presidencial nasce da vontade do candidato mas tem de ser previamente suportado por uma base de forte apoio social que se transforma numa corrente de votos.
O risco de estar em alta nas primeiras sondagens não é apenas o excesso de confiança. Quando se começa em alta tem-se mais probabilidades de ter decréscimos do que ter subidas nas sondagens. E ao contrário do que Marcelo pensa, muitos eleitores decidem em quem votar e decidem mesmo se votam no final da campanha.
Se todos os votos da direita estivessem assegurados, Marcelo seria o próximo Presidente da República sem grandes sobressaltos (facilmente iria buscar alguns votos ao centro e até à esquerda). O que Marcelo ainda não terá percebido é que muitos eleitores do PSD e do CDS não o apoiam, pelas sucessivas críticas que fez ao governo, aos autarcas e a membros destes partidos.
A eleição presidencial não é um dado adquirido e, sobretudo, não se pode esquecer que se trata de um acto político que é influenciado por inúmeras variáveis.

É provável que Marcelo Rebelo de Sousa seja o próximo Presidente da República. Mas antes disso ocorrer é natural também que a sua “não campanha” eleitoral se transforme numa verdadeira campanha política sem receio de apelar aos votos, de mostrar as diferenças, de criticar as propostas dos opositores e de agitar bandeiras em qualquer comício cheio de militantes pseudo-anónimos cheios de vontade de mostrar serviço aos líderes das suas distritais partidárias.

A estratégia de Marcelo Rebelo de Sousa é louvável mas na realidade politica nacional é uma espécie de roleta russa...ou tuga que tem mais riscos do que hipotéticas vantagens.

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

O futuro da direita portuguesa e os ácaros entranhados no armário

Depois de uma vitória amarga e de uma colossal derrota negocial, a direita portuguesa sofreu um profundo golpe político do qual dificilmente recuperará no curto prazo. E vou explicar porquê:
1-      A direita insiste no discurso da ilegitimidade política, esquecendo que o governo PS com PCP/ PEV/PAN e BE é fruto da legislação, da Constituição e da nomeação Presidencial. Apenas não é legítimo do ponto de vista tradicional e histórico. Mas, se Portugal não é governado em regime de tribo ou anciãos, utilizar o argumento da ilegitimidade é uma perda de tempo e uma afronta à democracia;
2-      A direita continua a achar-se vencedora. Isso originou a ausência de demissões, a manutenção do discurso e a escassez de reflexões para identificar os problemas, os erros ou a eventual mais (ou menos) valia da coligação PAF;
3-      Como se acha vencedora, a direita não admite opiniões contrárias nem divergentes, não aceita sugestões de mudança, não pretende mudar discursos, metodologias nem pessoas;
4-      Os boys da direita (são tantos e com igual qualidade dos boys da esquerda) acreditam que o actual governo vai cair no dia seguinte e continuam a pairar na esfera política, não dando espaço para novas pessoas ou mudanças de estilo;
5-      Marcelo Rebelo de Sousa, potencial próximo Presidente da República não é um liberal e a sua hipotética eleição nem poderá ser aclamada como uma vitória da direita, ou melhor, da direita tal como hoje a conhecemos;
6-      A sociedade portuguesa é tradicionalmente de esquerda – efeitos de uma revolução socialista ainda muito recente e aos receios do papão da ditadura do fascismo. Afrontar a esquerda sem ter propostas, argumentos, politicas ou pensamentos que tenham em consideração as pessoas e não apenas os números, apenas vai dar mais força à coligação de esquerda e à união desta contra o "governo dos números" (recente governo PSD/CDS)


Quando um partido se habitua a ter poder, torna-se numa espécie de adolescente que ganha vícios que são tanto maiores quanta a independência que tem de outras instituições e outras forças políticas para aprovar aquilo que pretende. O PSD e o CDS ganharam esses vícios e não os perderam abruptamente como teria acontecido no caso de uma monumental derrota eleitoral. Assim, arriscam entrar numa demorada fase de definhamento político e de gradual perda dos ácaros até ganharem novamente o ímpeto ganhador daqueles que querem fazer mais, que querem fazer melhor e que estão dispostos a mudar para evoluir. Quanto mais tempo persistirem no definhamento, mais espaço de manobra terá o "governo vermelho" e menos oposição teremos no parlamento.
Ou seja, os cidadãos terão o mesmo problema: uma democracia fraca, sem contraditório construtivo, sem uma alternativa estável e sem esperança no futuro!
Mudam os actores e o encenador mas a trama continua!


sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Para ser bom político, não chega ser bom técnico


O pequeno título deste texto tem-se aplicado a inúmeras escolhas políticas que, apesar de aclamadas pelas elites sociais, não passaram de erros de casting. Essas escolhas são comuns em todos os governos mas também na elaboração de listas de deputados, nomeações públicas e tantas outras opções onde foi preterido o feeling político em detrimento unicamente da capacidade técnica, da boa vontade pessoal ou da camaradagem com quem tem o poder de escolha.

Para o cidadão menos atento a estas questões, a inabilidade política seria um mal menor face a outros valores mais nobres da pessoa humana que aparentemente superariam a falta de jeito para a gestão de dossiers políticos. Mas a verdade é que isso não acontece. Alguns políticos menos dotados conseguem passar pela vida política de forma inócua, muitos fingindo-se de adormecidos, hibernados ou até de mortos. Mas outros não têm esses dons e são confrontados com erros de cálculo, incapacidade negocial, falta de liderança, desconhecimento dos mecanismos de gestão, dificuldade de adaptação, inabilidade para discursar e tantos outros constrangimentos que minam a política e fazem aumentar a venda dos tablóides. Obviamente que estes erros de casting são tanto mais graves quanto a responsabilidade que as personalidades assumem. Por vezes, a gravidade afecta apenas o próprio mas em outras ocasiões afecta executivos, partidos, governos ou até o país.
A escolha de personalidades para ocupação de cargos políticos decorre de estratégias políticas mas também pode ocorrer por meros acasos conjunturais. A urgência com que muitas nomeações são decididas não permite analisar os dotes políticos nem a inteligência emocional dos escolhidos. Muitas vezes, nem possibilita que os candidatos sejam “googlados” para perceber o que andaram a dizer e a fazer nas suas vidas.
E não se pense que será a Cresap a tratar este problema político pois nem a entrevista de seleção, nem o teste psicotécnico ou a análise de currículo permitem detectar e rejeitar candidatos desadequados politicamente (atenção que politico é diferente de filiado em partido político).

Este governo também tem esses problemas. Alguns bons técnicos serão pouco mais do que marionetas nas mãos de políticos experientes e jornalistas ávidos de escândalos, erros, incongruências. O grande problema é que a inabilidade política não é um problema de saúde tratável. É uma maleita crónica que pode eventualmente ser minimizada mas também pode arruinar uma caminhada ganhadora.
Aos bons técnicos com aspirações pelo poder, recomendo o estudo destas matérias para se precaverem mas aos decisores públicos desejo que tenham consciência que as escolhas que fazem afectam positiva ou negativamente o país que têm missão de gerir.


quarta-feira, 28 de outubro de 2015

A terceira via - um Governo de união sem Passos nem Costa

A conjuntura política nacional está ao rubro com inúmeros jogos políticos que ameaçam os equilíbrios de poder vigentes no parlamento nos últimos 30 anos.  Esta profunda alteração da tradição institucional provocará cisões estruturais da esquerda à direita. No entanto, mais importante do que as consequências estruturais, importa resolver o problema no curto prazo.

Dado que a primeira via (indigitação de Passos Coelho como Primeiro Ministro e acordo de regime com o PS) parece cada vez mais uma miragem e como a segunda via (indigitação de António Costa com acordo de regime com BE e PCP) tem ainda muitas arestas a limar, julgo que a Presidência da República deveria começar a trabalhar numa terceira via que clarificasse o quadro político e minimizasse a fractura estrutural entre os partidos do centro (o que vai acarretar consequências indesejadas na aprovação de matérias tão importantes como os compromissos internacionais, aprovação do orçamento, lei de programação militar, reforma do Estado e reforma da constituição – não falo da reforma do sistema político porque essa parece ser um dossier do qual os partidos nem querem ouvir falar).
Essa terceira via seria o resultado da rejeição do Governo PAF na Assembleia e da não indigitação de António Costa como Primeiro Ministro, obrigando o Presidente da República que as forças politicas mais votadas (PAF e PS) voltassem à mesa das negociações para nova ronda sobre os temas mais sensíveis com o objectivo de se instituir um governo de consenso alargado. 

O Governo não seria liderado nem por Passos Coelho nem por António Costa mas sim por uma personalidade do PSD como por exemplo Rui Rio ou até por um independente com capacidade de fazer pontes à esquerda e à direita. Passos Coelho e António Costa teriam de se demitir ou remeterem-se a líderes partidários, concordando com a marcação de eleições intercalares em Outubro de 2016, esclarecendo em sede de campanha eventuais alianças que pretendessem fazer e quais as políticas que estavam dispostos a sacrificar para alcançar acordos políticos. Também o BE e o PCP teriam de explicar aos seus eleitores qual a elasticidade dos seus programas e dos seus dogmas.
A terceira via que proponho sacrificaria dois líderes políticos mas colocaria alguma água na fervura na actual conjuntura. A necessidade de promover consensos, pelo menos pontuais, a divergência entre programas partidários sufragados e políticas seguidas após eleições, a dificuldade de convergir programas da esquerda e a recente saída de um programa de assistência internacional são motivos mais do que justificativos para que os principais partidos políticos guardem as armas e regressem às negociações, equacionando novos cenários mesmo que isso implique o sacrifício dos seus líderes.

A chegada ao poder de Passos Coelho, de António Costa ou mesmo de ambos estará(ia) à partida ferida de morte, sendo fortemente criticada pelo seu processo de indigitação e pela sua ilegitimidade politica. Isso alterará(ia) o foco parlamentar para questões acessórias e não condizentes com o interesse nacional.
Mas para que isso aconteça, os partidos têm de ser mais do que os seus líderes e o interesse no país terá de prevalecer sob o interesse no poder. Será que isso acontece?


quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Os partidos são aquilo que os líderes fazem deles

A política contemporânea tem vindo a ajustar-se a novas realidades sociais como a internet, a diminuição de militantes activos e a perda de importância dos manifestos partidários. Estas influências têm levado a ajustamentos dentro dos partidos, muitas vezes sem os próprios se aperceberem do caminho que estão a seguir. Por exemplo, se alguém ler com atenção os manifestos partidários vai facilmente encontrar referências do PSD ao socialismo e do PS à social democracia.

Mas esta orientação política dos partidos é sobretudo influenciada pelos líderes partidários e pela sua estratégia de captura do poder. Por exemplo, no PSD, a social democracia foi mais estimada por Santana Lopes e o liberalismo por Passos Coelho. No PS de José Sócrates, a social democracia estava muito presente em contraposição com o socialismo mais à esquerda de António Costa.

A matriz política dos partidos é o resultado do conjunto dos diversos posicionamentos conjunturais que os líderes escolhem por ideologia ou por estratégia, por isso o PSD é identificado de direita enquanto que o PS é orientado para a esquerda.
Ou seja, nada nos garante que qualquer dos partidos fique, em algum momento da sua história, próximo das extremas (esquerda ou direita) ainda que a sua matriz cultural média esteja politicamente definida. Claro que esta orientação terá impacto nos resultados eleitorais futuros, mesmo que o próximo líder oriente o partido em sentido contrário ao do seu antecessor.

O que pretendo dizer é que os partidos são, em termos conjunturais, aquilo que os líderes fazem deles, enquanto que a sua filosofia política está marcada estruturalmente pelo conjunto de politicas defendidas desde a sua constituição.
Não é portanto de estranhar uma maior aproximação do PS às extremas esquerdas ou a aproximação do PSD ao liberalismo. Claro que esta análise não é feita por cada um dos eleitores (nem pelos próprios partidos), daí que seja frequente ouvir o comentário “não foi para isto que eu votei neles” ou, pior ainda “sinto-me enganado”.

Esta insatisfação social deveria ser tendencialmente eliminada. A correspondência das orientações programáticas antes e depois das eleições deveria ser garantida pelos partidos políticos. É que uma coisa é a demagogia com que defendem as suas posições em campanha eleitoral, outra coisa é a definição de políticas, após as eleições, completamente distintas das propostas submetidas a escrutínio.

Não havendo uma alta autoridade para a política portuguesa que ligue um semáforo vermelho sempre que um partido se afaste das politicas que apresentou a votação, cabe não apenas aos eleitores (nas eleições seguintes) mas também à Presidência da República ser o garante da coerência politica como forma de defesa do regime democrático. É verdade que a acção política do Presidente da República é limitada pela Constituição mas, pelo menos, é-lhe exigido que exerça essa sua magistratura nos momentos chave para o futuro do país. Nesta fase delicada em que nos encontramos, é também isso que é exigido a Cavaco Silva.