Com a crise das dívidas soberanas, muito se tem falado em tecnocratas e em governos liderados por técnicos e não por políticos. No entanto esses governos, nomeadamente os seus líderes governativos, foram nomeados por uma câmara de representantes e não pela população. Quer queiramos ou não, nesses países a Democracia parece ter sido suspensa por alguns meses. São os casos da Grécia e de Itália.
Podemos dizer que a representatividade se mantém porque os governantes foram eleitos por representantes dos cidadãos mas a verdade é que se tratam de democracias com graus de liberdade diferentes. Este argumento foi utilizado também em Portugal por uma líder de um partido (que à data das declarações se encontrava na oposição), dando lugar a inúmeras críticas de todos os quadrantes políticos.
Mas esse aspecto apenas serve de introdução à temática dos governos de tecnocratas ou aos governos de políticos.
Quando falamos em tecnocratas, referimo-nos à gestão pública efectuada com base em análises científicas e os membros de um governo escolhidos de acordo com suas qualidades técnicas. Este conceito surge em oposição a um determinado estereótipo de político populista e demagogo que gere a sua actuação apenas com base nos resultados eleitorais.
Podemos dizer que a opção por tecnocratas é uma solução limite face aos problemas ocorridos na Europa. Mas é também uma forma de censura às decisões dos cidadãos e às escolhas de líderes por parte dos partidos políticos. É ainda uma debilidade da sociedade que incentiva a existência de líderes políticos populistas.
A verdade é que vivemos em sociedades invejosas e com tendência em não perceberem a teoria do ciclo de vida social (se gasto hoje 100€ e se não os pago, alguém terá de os pagar amanhã, adicionados de juros). Esta sociedade prefere optar quem lhe oferece privilégios sem pensar no futuro e, conforme a história recente nos mostra, é necessário que um país chegue ao limite para nomear governantes com cariz técnico.
Pessoalmente não consigo compreender sequer o termo tecnocrata quando este se refere a alguém com cariz técnico num governo (isto em oposição ao conceito de politico como o conhecemos). Haverá algo mais político do que pertencer a um governo? E para além disso, não temos nós também em Portugal membros de Governo Licenciados, Mestres ou Doutores? Quererá isso dizer que temos um Governo de tecnocratas?
Se a resposta à última questão for afirmativa, como explicamos a nossa situação de quase bancarrota quando nas últimas décadas fomos também governados por Licenciados, Mestres e Doutores?
Dificilmente podemos dizer que vivemos em Tecnocracia, até porque a decisão política implica escolhas, muitas delas baseadas em critérios não quantificáveis ou difíceis de medir. O método científico na decisão pública relaciona-se em grande medida com o tradicional método político, ideológico, filosófico e económico. Não se tratam de opostos mas sim de diferentes abordagens aos problemas comuns.
Assim, podemos dizer que os tecnocratas são políticos com outros tipos de preocupação. Não são melhores nem piores do que os políticos tradicionais. Apenas há políticos incompetentes e tecnocratas incompetentes, da mesma forma que há pessoas competentes! Nesta divagação filosófica quem fica a perder são os cidadãos, principalmente dos países em causa, porque não escolhem os seus líderes e ainda têm um voto de censura interna e externa às decisões que tomaram! A democracia tem as suas falhas mas a tecnocracia tal como nos é apresentada não fica atrás! No meio de tudo, aproveitam-se as pessoas válidas e a análise técnica, embora não haja decisões públicas sem decisões políticas!