segunda-feira, 24 de setembro de 2012

A Crise do Euro II - “Legislação laboral e desemprego: os custos da rigidez”


Nos países Anglo-Saxónicos o Euro parece-me ser visto de forma bastante negativa. Muitos veêm o Euro como uma instituição que limita o dinamismo das economias que o adoptaram. À tabela 1 em baixo desmente essa ideia. Sim, é verdade que até à Grande Recessão a Islândia, o Reino Unido e os EUA cresceram mais do que a maioria dos países da zona do Euro, mas também era esse o caso antes da adopção do Euro.

Tabela 1: Taxas médias de crescimento anuais do produto em percentagem

Também é verdade que o país que mais cresceu nesse período foi a Irlanda, um dos membros do Euro. A Holanda, outro membro do Euro tambem teve um bom desempenho. O que explica então a falta de dinamismo das economias que pertencem ao Euro? Eu penso que a explicação está sobretudo em regulação escessiva que resulta num obstáculo ao crescimento económico. Um caso paradigmático é o do mercado laboral. A tabela 2 mostra uma medida de protecção laboral para os países da OCDE e parece confirmar a hipótese de um efeito negativo no crescimento económico de regulação laboral excessiva. As únicas economias que conseguiram ter taxas de crescimento robustas de forma sustentada (a Grécia e Espanha conseguiram-o mas apenas durante um período relativamente curto) são justamente aquelas que têm menor regulação do mercado laboral (Islândia, Irlanda, Reino Unido, EUA e Holanda).

Tabela 2: Índice de proteção do emprego da OCDE

Será coincidência? Penso que não. Excessiva protecção laboral limita o crescimento da produtividade (limitando por exemplo a deslocação de trabalhadores para actividades onde sejam mais úteis) e desencoraja o investimento (a criação de uma empresa tem sempre um risco significativo, se o investidor sabe que mais tarde não pode voltar atrás então pode muito bem decidir não o fazer).
Para além da excessiva regulação laboral ser um obstáculo sério ao potencial económico de longo prazo de muitos dos países do Euro eu penso que (ao contrário do Euro) também desempenhou um papel muito importante por detrás da situação verdadeiramente trágica que vários dos países da periferia do Euro se encontram hoje. A figura 1 mostra-nos como as taxas de desemprego dos países da periferia aumentaram de forma dramática após a Grande Recessão. Como vimos na tabela 1, a Islândia e Irlanda sofreram tanto como a Grécia em termos de redução do produto. Em termos de perda do produto o Reino Unido foi afectado de forma semelhante a Espanha, Itália e Portugal. Mas podemos ver na figura 1 que em termos de aumento do desemprego as economias destes países responderam de forma bastanta diferente. Em 2011 a taxa de desemprego da Islândia foi de 7%, a da Irlanda foi de 14% e a da Grécia 18%. No mesmo ano, Reino Unido, Espanha, Itália e Portugal tiveram taxas de desemprego de 8%, 22%, 8% e 13% respectivamente. Será coincidência que os dois países (Espanha e Grécia) que têm mercados laborais mais rigídos são precisamente os mesmos que sofrem de maior desemprego? Por outro lado, dos países com mercados laborais menos regulados apenas a Irlanda enfrenta uma das taxas de desemprego mais elevadas (dos países mais regulados apenas a Itália não teve um aumento dramático). Apesar do desemprego na Islândia e Reino Unido ter aumentado, não atingiu os níveis dos países que sofreram de forma similar em termos de redução do produto.

Figura 1: Taxa de desemprego

O que poderá explicar isto? Um estudo recente de Robert Shimer (2012) indica que o aumento dos números de desemprego é explicado sobretudo pela diminuição de contratações de trabalhadores e não pelo aumento dos despedimentos. Ou seja, a excessiva legislação laboral pode contribuir para o aumento do desemprego numa recessão pois os efeitos negativos em termos de redução de novas contratações superam os efeitos positivos em termos de redução de despedimentos.
A excessiva regulação contribuiu também de outra forma para a amplificação dos efeitos da recessão nos países da periferia (para aqueles interessados em evidência “anedótica” sugiro a leitura do blog do John Cochrane que descreve as situações difíceis que empresas enfrentam em países da periferia). Olhemos para a tabela 3 que nos mostra a proporção de empresas por dimensão (medida em termos de número de trabalhadores) em várias economias europeias.


Tabela 3: Percentagem de empresas por número de trabalhadores (ano de 2005)

Podemos ver, que exceptuando a Irlanda (e também, até um certo ponto, Portugal), os países da periferia do Euro têm uma proporção muito inferior de médias e grandes empresas em relação aos outros países europeus (o que provavelmente indica, que regulações excessivas, dificultão a expansão das empresas a partir de uma certa dimensão, e/ou a regulação protege as actuais grandes empresas de novos competidores). Como pode isto explicar que a periferia do Euro tenha sido afectada de forma mais intensa pela Grande Recessão? A contração da disponibilidade de crédito tem sido a característica determinante da Grande Recessão. Ora, são justamente as pequenas empresas que mais necessitam do acesso ao crédito e mais afectadas são pelos ciclos económicos (veja-se, por exemplo, o estudo de Gertler e Gilchrist, 1994). Economias que têm uma maior proporção de pequenas empresas são portanto mais vulneráveis a contracções de crédito. As empresas de menor dimensão também exportam menos (na UE apenas 8% das pequenas e médias empresas exportam enquanto 28% das grandes empresas exportam) e por isso reduzir os obstáculos que impedem as empresas de expandir o seu negócio também ajudaria estes países a exportar mais.

João Madeira
Universidade de Exeter

Referências:

Os dados para as tabelas 1, 2 e figuras 1 podem ser obtidos no website da OCDE: http://stats.oecd.org/

Os dados da tabela 3 podem ser obtidos do website da CE:

O blog do John Cochrane pode ser encontrado aqui: http://johnhcochrane.blogspot.co.uk/

Gertler, Mark & Gilchrist, Simon (1994). "Monetary Policy, Business Cycles, and the Behavior of Small Manufacturing Firms," The Quarterly Journal of Economics, vol. 109(2), pages 309-40, May.

Shimer, Robert (2012). "Reassessing the Ins and Outs of Unemployment," Review of Economic Dynamics, vol. 15(2), pages 127-148, April.

Sem comentários: